quarta-feira, junho 21, 2006

JORGE DUILIO BEN ZABELLA LIMA DE MENEZES


O nome oficial do RG é de um cidadão comum, mas desde inicio da década de 60, Jorge Ben pode ser classificado de tudo, menos de um simples brasileiro. Eu cresci ouvindo duas músicas, grupos de Hip Hop usam samplers de suas canções e é reverenciado pelo líder do grupo Racionais Mcs, Mano Brown.
Mas o filho do estivador Augusto de Menezes e da dona de casa Silvia Lenheira Bem Zabella tinha na adolescência a meta de se tornar médico pediatra ou advogado, carreiras respeitadíssimas na época. Secretamente tinha o desejo de também se destacar nos campos de futebol. Não é difícil isso acontecer, pois temos que lembrar que no período estavam em campo Pelé, Garrincha e outros deuses da bola.
Entretanto uma contusão no tornozelo, fez com que ficasse fora das quatro linhas esportivas, e em recuperação passou a explorar um violão que sua mãe tinha lhe presenteado. E um detalhe definiu o seu sucesso: Jorge não conseguia aprender a tocar o instrumento da forma tradicional e inventou um jeito que até hoje podemos ouvir em suas composições.
Ele foi descoberto, logo depois pelo contrabaixista Manuel Gusmão do grupo Copa Trio, seu antigo parceiro das peladas nas praias. Ele levou Jorge até o Beco das garrafas, bairro Copacabana, e lá tocando várias noites com a nata dos músicos cariocas. Chamou a atenção de um olheiro de novos talentos, o diretor da gravadora Polygram, João de Mello.
Na Polygram, o musico gravou uma fita demo, com arranjos do lendário J.T. Meirelles, flautista do conjunto Copa 5. E em um disco pesado de 78 rotações saíram às músicas Mas que nada e Por causa de você, menina. O Disco Samba Esquema Novo em 1963 foi consequência da repercussão desta gravação. Vendeu 100 mil cópias e fez uma turnê capitaneada pelo arranjador Sergio Mendes, pelos Estados Unidos.
Depois disso surgiu convite para tocar no programa Fino da Bossa, que era comandado por nada menos que a dupla do momento, Elis Regina e Jair Rodrigues. Não foi sua única participação na televisão, um amigo de fé e irmão camarada Erasmo Carlos, conhecia Jorge das partidas de futebol em Tijuca. O Tremendão era integrante de um novo estilo musical – a Jovem Guarda, que tinha um programa de televisão. Lá se apresentou ao lado dos The Fevers e usou seu instrumento preferido – a guitarra.
Mas o jeito de Jorge Ben tocar guitarra e violão é nitidamente diferente. Em entrevista a Revista Raça, em 1998, a jornalista Maria Amélia Rocha Alves, ele foi influenciado pelo compositor Luís Carlos Paraná, que lhe ensinou a afinação estilo viola caipira. Mas nem só de originalidade o músico vivia. Ele ainda estudou Musica em Berkely, estado da Califórnia, nos Estados Unidos.
Em 1966, plena Ditadura Militar, surge a Tropicália, um grande Movimento Cultural e lá estava Jorge Bem mostrando seu estilo musical, que nos anos 70, com o Movimento Black Power, torna-se mais suingado. Ele lidera um grupo de novos talentos afro-brasileiros com um jeito brasileiro de fazer soul, funk, enfim black music: Gerson King Combo, Banda Black Rio, Cassiano e Tim Maia, amigo de adolescência. Com a equipe do Chic Show em São Paulo, acontece apresentações antológicas, que infelizmente não foram registradas para hoje serem oferecidas em DVD.
Como já descrevi aqui no Blog, junto com Trio Mocotó, inventaram o Samba Rock, que Jorge chama de sambalanço ou sacundin sacundem. Hoje há vários seguidores. Inclusive tenho que fazer uma correção: a música Segura a Nega, é hoje executada pelo grupo Clube do Balanço, mas foi lançada pelo Bebeto (por onde andará?).
Há uma lenda interessante sobre o musico, ele teria trocado o nome por numerologia, mas a versão correta foi uma mudança estratégica, pois quem gosta de musica conhece George Benson, cantor afro-americano. Pela sonoridade e grafia parecida com o sobrenome artístico de Jorge, ele mudou para Benjor, para inclusive evitar que direitos autorais fossem recolhidos só para o musico dos Estados Unidos.
Pra mim que nasci em 1970, vai ser sempre Jorge Ben. Um dos seus discos que repousam em sua versão long play, na casa de minha mãe, comprada pelo meu saudoso pai, é o Salve Simpatia, com o hit que canto até hoje.
Jorge fez e faz ainda uma carreira sensacional, servindo hoje de referencia para novas gerações. Tem uma coleção considerável de guitarras, e apesar da má fase, é um dos torcedores fanáticos do Flamengo.



Discografia
Reactivus amor est - Turba Philosophorum (2004)
Acústico MTV - Admiral Jorge V (2002)
Acústico MTV - Banda do Zé Pretinho (2002)
Músicas para tocar em elevador (1997)
Homo Sapiens (1995)
Ben Jor world dance (1995)
23 (1993)
Live in Rio (1992)
Ben Jor (1989)
Ben Brasil (1986)
Sonsual (1985)
Dádiva (1984)
Bem-vinda amizade (1981)
Alô, alô, como vai (1980)
Salve simpatia (1979)
A banda do Zé Pretinho (1978)
Tropical (1977)
África Brasil (1976)
Jorge Ben à L'Olympia (1975)
Solta o pavão (1975)
Gil Jorge (1975)
10 anos depois (1973)
A tábua de esmeralda (1972)
Ben (1972)
Negro é lindo (1971)
Força bruta (1970)
Jorge Ben (1969)
O bidú - silêncio no Brooklin (1967)
Big Ben (1965)
Ben é samba bom (1964)
Sacundin Ben samba (1964)
Samba esquema novo (1963)


Rainha Tereza do Quilombo Quariterê


A História do Povo Negro não se resume apenas líderes masculinos  como Zumbi dos Palmares. Há  figuras esquecidas inclusive pelo movimento negro é a líder quilombola Teresa do Quariterê, que chefiou uma comunidade no interior de Mato Grosso, que tinha 79 pessoas negras e 30 índios, nas proximidades do Rio Galera.
O Quilombo do Quariterê surgiu em 1750,  composto por pessoas que conseguiram escapar de senzalas e indígenas sobreviventes da perseguição portuguesa. Lá, Tereza criou um sistema político similar ao parlamentarismo. Ela era a rainha e se submetida à decisão de um conselho de representantes. Havia um regular exército de resistência que possuíam armas de fogo, obtidas ou no comercio de produtos excedentes do quilombo, ou de oponentes vencidos que tentaram invadir a comunidade. Não era admitida a deserção, sendo punida com pena de morte, visando inclusive a segurança dos quilombolas, que poderia denunciar onde estava escondida a comunidade.
Outra inovação implantada por  Tereza  era sistema comunitário de produção agrícola. Além de alimentos, eram plantados algodões, para serem usado para confeccionar as roupas dos moradores do quilombo. O tecido era tão bom, que mercadores ambulantes que iam até o quilombo para adquirir o produto.
O fim do Quilombo de Quariterê foi decretado pelos senhores de escravos do Mato Grosso que se assustaram com o foco de resistência. Em um cerco militar conseguiram dominar os quilombolas, e prender todos os 44 sobreviventes. No confronto, o conselheiro militar de Tereza foi morto. Ela captura e ciente de seu destino, preferiu o suicídio comendo ervas, quando era conduzida para ser torturada na cidade de Vila Bela.

segunda-feira, junho 19, 2006

Gostava tanto de você


Um DVD sensacional. Além das músicas tem uma entrevista muito engraçada do Tim Maia, que fala sobre extraterrenos, intraterrenos, seres do futuro e do passado, onde tudo é tudo e nada é nada.
Veja, eu adorei. Só tem um defeito: é curto demais!
Relação das músicas:
Entrevista. Show.

1. Vale tudo (Tim Maia)
2. Telefone (Nelson Kaê e Beto Corrêa)
3. O descobridor dos sete mares (Michel e Gilson Mendonça)
4. Pout-Pourri:
Primavera (Cassiano e Silvio Rochael)
Azul da cor do mar (Tim Maia)
Se me lembro, faz doer (Tim Maia)
5. Você (Tim Maia)
6. Do leme ao pontal (Tim Maia)
7. Pout-Pourri:
Folha de papel (Sérgio Ricardo)
A rã (Caetano Veloso e João Donato)
8. Gostava tanto de você (Edson Trindade)
9. Um dia de domingo (Michael Sullivan e Paulo Massadas)
10. Pout-Pourri:
Meu país (Tim Maia)
Chocolate (Tim Maia)
11. Vale tudo (Tim Maia)

Tudo sobre os Andersons




Este é um outro seriado americano interessante. Novamente é sobre uma familia negra e seu cotidiano. Sei que alguns vão dizer que não há nada de conscientização negra, mas assim como "Eu, a patroa e as crianças" ele serve para denunciar o nosso racismo televisivo, onde há poucos atores e atrizes negros.

Além disso é divertido. Pena que é uma vez por semana. Também é exibido no SBT.

sexta-feira, junho 16, 2006

Joaquim Maria Machado de Assis


Faz tempo que estava enrolando para escrever sobre o grande escritor Machado de Assis, fundador da Academia Brasileira de Letras e respeitadíssimo até no exterior. Era negro, embora isso seja pouco divulgado, e parte do movimento negro, de forma equivocada acaba criticando a sua não adesão mais firme ao Abolicionismo, a exemplo de Luis Gama e Castro Alves. Mas a leitura do conto Pai contra Filho, escrito por ele, e que inspirou um dos melhores filmes brasileiros – Quanto Vale ou é Por Quilo? – não deixa divida sobre a sua consciência negra.
Ele nasceu no dia 21 de junho de 1839, na cidade do Rio de Janeiro. Era filho do brasileiro, carioca, descendente de negros alforriados, pintor e dourador Francisco de José, operário negro e da portuguesa da ilha de São Miguel, Açores Dona Maria Leopoldina, dona de casa. Infelizmente, sua mãe morreu quando ele ainda era criança, mas seu pai casou novamente e sua esposa, Maria Inês Machado o criou como filho. Aos 12 anos, sofre nova perda, o pai falece. Também perdeu logo nos primeiros anos de vida sua única irmã.
A madastra de Machado de Assis, era doceira em um colégio no bairro São Cristóvão, Rio de Janeiro. Neste ambiente, ajudando a vender os quitutes no ambiente escolar, logo ele toma conta com professores e alunos e ganhou a possibilidade de freqüentar as aulas. E ele aproveita para ter as primeiras noções gramáticas.
Também neste trabalho de vendedor de doces, o adolescente Joaquim conquista com sua inteligência, a proprietária de uma panificadora, uma senhora francesa, que lhe dá aulas de francês. E por fim é também digno de registro a ajuda que a viúva do Brigadeiro e senador do Império Bento Barroso Pereira – a senhora Maria José que praticamente o adotou financeiramente. Mesmo com os problemas da epilepsia e da gagueira, que tinha, ele foi conseguindo informalmente se instruir.
Apaixonado pela leitura e pelas poesias, não demorou que ele próprio escrevesse a sua. Com 16 as conseguiu no dia 12 de janeiro de 1855, publicar seu primeiro texto, na Revista Marmota Fluminense. O poema intitulado “Ela”, que foi t;ao bem aceito, que Joaquim passou a colaborar regularmente com a publicação, por ordem do proprietário – Francisco de Paula Brito.
A fama de um nas letras, fez com que o jovem Joaquim, aos 17 anos, conquistasse seu primeiro emprego – aprendiz de tipógrafo na Impressa Nacional. Durante as horas vagas no trabalho, escreve alguns textos, que logo é percebido pelo diretor do órgão, o escritor de Memórias de um Sargento de Milícias, Manuel Antonio de Almeida.
Mas em 1858, o Francisco de Paula Brito, faz uma ótima oferta de emprego, levando o jovem Joaquim de volta a Livraria Paula de Brito, como revisor e colaborador da Marmota Fluminense. Além disso, insere o escritor na Sociedade Litero Humorística Petalogica, onde ele passa a ter amizade dos escritores Joaquim Manoel de Macedo, José de Alencar e Gonçalves Dias.
Em 1859, Machado de Assis torna-se revisor e colaborador da Gazeta Mercantil e no ano seguinte, convidado por Quintino Boicaiuva passa a trabalhar na redação do Diário do Rio de Janeiro. Uma das lendas sobre Machado de Assis que sua caligrafia era muito ruim. Redator do Diário de Janeiro, seus companheiros de trabalho, os revisores, recusaram trabalhar com ele, sem que melhorasse sua letra. As reclamações chegaram até o proprietário do periódico que afirmou que só acreditaria se visse os originais de Machado. Mas reconheceu que apesar do talento, a caligrafia era ruim mesmo. Chamado para decifra suas anotações aconteceu algo até hilário, nem o escritor conseguiu traduzir. Por fim, teve que melhorar sua caligrafia.
Contribuiu também nas revistas O espelho, Jornal das Famílias e através do pseudônimo Doutor Semana – escreve no Semana Ilustrada – todos periódicos culturais.
Em 1861, o escritor participa como tradutor da obra “Queda que as mulheres tem para os tolos”. E no ano seguinte conhece o português Faustino Xavier de Novais, diretor do jornal O Futuro, informativo cultural, que também era irmão de sua futura esposa, Carolina Augusta.
A primeira obra literária dele foi Crisálidas, publicada em 1864, aos 29 anos de idade e dois anos depois obtém uma promoção; é nomeado ajudante do diretor do Diário Oficial do Império. Em 1869 sofre uma grande perda, morreu seu amigo Faustino Xavier, o que serve para aproximá-lo mais de Carolina, e por conseqüência, casam-se, no dia 12 de novembro, ela com 32 anos e ele com 27.
O emprego público e o casamento sólido são as bases tranqüilas que o escritor necessitava para se sentir à vontade para dedicar seu tempo ao que tanto deseja: escrever. Carolina além de ser uma perfeita companheira, influenciou de forma decisiva em sua formação literária.
Não demorou muito, e no ano de 1872, Machado de Assis publica seu primeiro romance – “Ressurreição”. Isso coincide com mais uma promoção: agora ele é alçado ao cargo de primeiro oficial da Secretaria de Estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. Em 1889, ano da proclamação da republica, torna-se diretor de Comercio da mesma pasta
Dois anos depois Quintino Bocaiúva convida Joaquim para publicar como novela o romance “A mão e a Luva”. É o mesmo ano em que consegue terminar de escrever um dos seus livros mais conhecidos – Memórias Póstumas de Brás Cubas, que dá inicio ao estilo realismo na literatura brasileira.
Juntamente com o amigo e também escritor José Veríssimo, dirige a Revista Brasileira, entra em contato com vários intelectuais e cria no dia 28 de janeiro de 1897 a Academia Brasileira de Letras
, aonde viria a ser eleito o primeiro presidente.Entre os anos de 1882 a 1906, Machado de Assis escreve os contos: Papeis Avulsos, Paginas recolhidas e Relíquias da Casa Velha.
Em 1904, morre Carolina, e Machado de Assis escreve em sua homenagem, no meio do luto, um de seus melhores poemas, Carolina. Mas a depressão e um câncer o fez falecer em 29 de setembro de 1908, em sua velha casa no bairro carioca do Cosme Velho. Nem nos últimos dias, aceitou a presença de um padre que lhe tomasse a confissão. Bem conhecido pela quantidade de pessoas que visitaram o escritor carioca em seus últimos dias, como Mário de Alencar, Euclides da Cunha e Astrogildo Pereira. .
Seu corpo foi velado na sede da Academia Brasileira de Letras, que passou depois a ser denominada em sua homenagem de Casa de Machado de Assis.
A obra do escritor pode ser dividida em duas fases distintas: romântica e realista. Na primeira os personagens de seus livros são românticos e o principal enredo é a conquista do amor verdadeiro. São frutos deste período as obras: Ressurreição, A Mão e a Luva, Helena e Iaiá Garcia. Foram escritos na fase realista os livros: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro e Memorial de Aires, que são caracterizados pelas questões psicológicas e sociais, onde as pessoas são retratadas com seus defeitos e qualidades.
BIBLIOGRAFIA:
Comédia
Desencantos, 1861.Tu, só tu, puro amor, 1881.
Poesia
Crisálidas, 1864.Falenas, 1870.Americanas, 1875.Poesias completas, 1901.
Romance
Ressurreição, 1872.A mão e a luva, 1874.Helena, 1876.Iaiá Garcia, 1878.Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881.Quincas Borba, 1891.Dom Casmurro, 1899.Esaú Jacó, 1904.Memorial de Aires, 1908.
Conto:
Contos Fluminenses,1870.Histórias da meia-noite, 1873.Papéis avulsos, 1882.Histórias sem data, 1884.Várias histórias, 1896.Páginas recolhidas, 1899.Relíquias de casa velha, 1906.
Teatro
Queda que as mulheres têm para os tolos, 1861Desencantos, 1861Hoje avental, amanhã luva, 1861.O caminho da porta, 1862.O protocolo, 1862.Quase ministro, 1863.Os deuses de casaca, 1865.Tu, só tu, puro amor, 1881.
Algumas obras póstumas
Crítica, 1910.Teatro coligido, 1910.Outras relíquias, 1921.Correspondência, 1932.A semana, 1914/1937.Páginas escolhidas, 1921.Novas relíquias, 1932.Crônicas, 1937.Contos Fluminenses - 2º. volume, 1937.Crítica literária, 1937.Crítica teatral, 1937.Histórias românticas, 1937.Páginas esquecidas, 1939.Casa velha, 1944.Diálogos e reflexões de um relojoeiro, 1956.Crônicas de Lélio, 1958.Conto de escola, 2002.
Antologias
Obras completas (31 volumes), 1936.Contos e crônicas, 1958.Contos esparsos, 1966.Contos: Uma Antologia (02 volumes), 1998
Suas principais obras foram traduzidas para diversos idiomas e grandes escritores contemporâneos como Salman Rushdie, Cabrera Infante e Carlos Fuentes confessam serem fãs de sua ficção, como também o confessou Woody Allen. A Academia Brasileira de Letras criou o Espaço Machado de Assis, com informações sobre a vida e a obra do escritor.


Endereço para ler a obra de Machado de Assis:
Biblioteca Digital MetaLibri
Academia Brasileira de Letras
Obras de Machado de Assis para leitura na Internet
Obras de Machado de Assis para download
Manuscrito de Machado de Assis

William Edward Burghardt Du Bois


Muitos de nós que aprofundamos em nossa pesquisa sobre a África, já ouvimos falar nele: William Edward Burghardt Du Bois um intelectual e ativista afro-americano e um bravo defensor do Pan-Africanismo. Nada mais correto do que fornecer aos meus irmãos e irmãs, um resumo sobre sua vida.
Willian nasceu no dia 23 de fevereiro de 1868 em Barrington. Desde crianças demonstrou um estranho talento para a escrita, tendo inclusive trabalhado em um jornal local. No ano de 1884 formou se brilhantemente no Segundo Grau e em 1888 formou-se na Universidade de Nashville.
Como professor voluntária dava aulas sobre História da África, na periferia de Nashville. Em 1888, também conseguiu entrar em uma das instituições de ensino mais conhecida do mundo – Harvard.
Entre os anos de 1892 a 1894 ele se formou em Historia e Economia, tendo trabalhando na Universidade de Ohio como professor de grego e latim.
Em 1891 Willian iniciou seu mestrado em Artes e em 1895 tornou-se Doutor em História por Harvard. Sua dissertação foi: “A supressão do comércio africano do escravo aos Estados Unidos da América, 1638-1870”, um trabalho exemplar até hoje de pesquisa.
O ano de 1896 foi excelente para Du Bois, casou-se com Nina Gomes e tornou-se professor assistente no Curso de Sociologia de Pensilvânia. Neste período concluiu seu livro sobre “O negro de Filadélfia: Um estudo social”. Isto lhe assegurou a conquista do renome entre os maiores professores norte-americanos.
Sua vida e trabalho foram dedicados ao Ensino da Historia do Negro e da África e a militância no Movimento Negro. Não demorou a também a participar da luta pelos Direitos Civis.
Em 1905 Du Bois fundou e secretariou o Movimento Negro de Niagara. Também ajudou a criar e editar várias publicações voltadas a formação da consciência negra Lua e Horizonte. Em 1909 foi um dos fundadores do NAACP – Associação Nacional para o Progresso das pessoas Negras.


De 1910 a 1934 serviu lá como o diretor de publicidade e de pesquisa, e Editor do jornal “Crise”, que serviu como órgão de divulgação da comunidade negra, e respeitado inclusive entre leitores de outras etnias, conseguindo inclusive lançar novos talentos.
Durante a Primeira Guerra Mundial, Du Bois lutou para criação de uma legislação antidiscriminação através da NAACP. Depois, em 1934, renunciou seu cargo na entidade para se dedicar a outra luta: a criação de escolas e empresas dirigidas por afro-americanos, apostando assim no protagonismo negro.
Entre os anos de 1944 a 1948 participou das denuncias sobre a situação do afro-americano na Organização das Nações Unidas, assessorando a entidade, sendo um de seus protestos, em 1947, muito repercutido.
William politicamente era considerado um socialista, sendo filiado ao partido nos Estados Unidos entre 1910 a 1912. Organizou em 1949 um Congresso de Estudos Afro Americano, assessorou senadores e deputados nos debates sobre a questão negra.
Mas esta militância não passou desapercebida pelos anticomunistas que tentaram denunciá-lo como espião, e para piorar sua situação, acabou filiando-se em 1961 ao Partido Comunista, tendo inclusive viajado para palestrar a Rússia e China.
Sua luta no Pan Africanismo foi sensacional. Em 1900 assistiu à primeira conferência de Pan Africanismo, ocorrida em Londres, Inglaterra, sendo eleito vice-presidente. Em 1911 Du Bois realizou o primeiro seminário étnico, em Londres, com estudiosos de africanos e indianos.
Entre os anos de 1919 a 1927 William com o objetivo de incentivar uma revisão histórica e sociológica sobre a África, promoveu vários seminários em varias partes do mundo. Debateu sobre o Colonialismo, Alienação e Opressão sofrida pelos povos africanos, sejam em seu continente, sejam como afrodescendentes.
No Quinto Congresso do Pan Africanismo, realizado no ano de 1945, em Manchester, Inglaterra, foi eleito presidente, com apoio de novas lideranças como George Padmore e Kwame Nkrumah , que se se tornaram lideres dos movimentos de independência em seus respectivos países.
Kwame Nkrumah

Em 1961, Du Bois emigrou para Ghana a pedido de Kwame, agora presidente do país e iniciou sua pesquisa para a primeira Enciclopédia Africana.
Além de professor, Du Bois foi poeta, escritor, novelista, ensaísta, sociólogo, historiador e jornalista, produzindo 21 livros, editando mais 15 e ele publicou mais de 100 artigos. Ele morreu em Ghana no dia 27 de agosto de 1963, um dia antes da Grande Marcha de Washington, recebendo um funeral de chefe de estado, devido a sua contribuição aos povos africanos.
Foi uma das pedras fundamentais do Movimento Negro Internacional ao lado de Marcus Garvey e da metodologia do Ensino da Historia do Negro e da África, nos currículos escolares, agora em vagarosa implantação no Brasil.

DEUSA MAWU




Quando pessoas foram trazidas da África para o Brasil, não puderam trazer para cá nada além de suas religiões. Em uma das dividas africanas pouco cultuadas, mas que mantêm seguidos no Brasil é a Deusa Mawu. A deusa da África Ocidental, Mawu chamava-se originalmente Mawu-Lisa e por vezes era vista como gêmeos masculino e feminino, por vezes um ser andrógino. A divindade dupla Mawu-Lisa é intitulada Dadá Segbô (Grande Pai Espírito Vital), Sé-medô (Princípio da Existência) e Gbé-dotó (Criador da Vida).
Mawu representa o Leste, à noite, a Lua, a terra e o subterrâneo. Sempre que ocorria um eclipse, dizia-se que Mawu e Liza estariam fazendo amor. Mawu-Lisa criaram todo o Universo e os Voduns juntos.
Lisa é, ao lado de Mawu, o vodun da Criação, pai e ancestral de todos os demais voduns, mas a tradição o coloca sempre em segundo plano em relação a Mawu. Lisa representa o Oeste, o Sol, o firmamento - assim como a luz e as águas contidas ali. É simbolizado por um camaleão que traz o globo dourado do Sol na boca. Enquanto Mawu representa o frescor e os prazeres da vida, Lisa encarna o trabalho, a seriedade e a determinação, semelhante à dualidade freudiana entre Eros, o princípio do prazer, e Tanatos, a pulsão da morte.
A cor emblemática de Lisa é o branco, e seus vodunsis devem andar sempre de branco. Ele recebe oferendas e sacrifícios de alimentos e animais de cor branca. Diferente de Mawu que se relaciona igualmente a todas as famílias de voduns, Lisa é considerado um JI-VODUN, e a tradição conta que ele é de origem nagô, e seus vodunsis ao final da iniciação são denominados anagonu.
Mawu é considerada uma deusa carinhosa, como atesta o provérbio: "Lisa pune, Mawu perdoa." Os Fon de Benin, na África Ocidental, cultuam Mawu como deusa Lunar.
Depois de criar Ayìkúngban, o Mundo, Mawu, deu seu domínio aos gêmeos Sagbata. Sogdo, por ser muito parecido com seu genitor, permaneceu no Céu, governando os elementos e o clima. A Agbê e Naeté foi concedido o domínio de Hu, o mar, que refresca a terra. Agué foi encarregado das plantas e dos animais que habitam a terra e a Gu, que tinha o corpo que era uma espada, foi concedida a habilidade de auxiliar os homens a dominar o mundo criado e garantir seu sucesso e felicidade em suas cidades, artefatos e tecnologias. Djó foi responsável por separar o Céu da Terra e dar trajes de invisibilidade a seus irmãos. O caçula mimado Legba permaneceu junto de Mawu, ancorado as seus pés. A cada vodun filho seu, Mawu ensinou uma língua diferente, que deveria ser usada em seus próprios domínios e Djó ficou encarregado de ensinar a linguagem dos homens, mas todos se esqueceram como falar a linguagem de Mawu, com exceção de Legba, que nunca se separou de seu genitor. Assim, todos os voduns e toda a humanidade teriam que recorrer a Legba para se comunicar com Mawu. Legba passou assim, a estar em toda parte, para levar e trazer mensagens dos seres criados ao seu Criador.
Dan Ayido Hwedo, a Serpente Cósmica, que havia auxiliado Mawu na criação no Mundo, não suportava o calor do sol e foi concedido que ele fosse morar no mar para se refrescar, circundando a terra, enquanto era alimentado com barras de ferro por macacos vermelhos enviados por Mawu, para evitar que mordesse a própria cauda e destruísse toda a Criação.
O filho de Mawu-Lisa, que permaneceu nos céus e fundou o Panteão do Trovão foi Sogbo. Já Sagbata, foi enviado à terra para se multiplicar. Quando teve que decidir que filho desceria à Terra, Mawu escolheu Sagbata por ser o mais velho. Sogdo ficou com inveja e fez com que as chuvas cessassem para que os homens não tivessem água para as colheitas. Quando as pessoas começaram a se queixar, Mawu enviou Legba para descobrir o que acontecia. Legba havia feito com que Sogdo parasse as chuvas inicialmente, mas Mawu não sabia disso. O trapaceiro Legba enviou um pássaro para iniciar incêndio na Terra. Quando a nuvem de fumaça se ergueu, Legba disse a Mawu que a falta de chuva estava queimando a Terra. Mawu então ordenou a Sogdo que liberasse a chuva.
Numa lenda diferente, Mawu e Lisa eram os criadores e usaram o seu filho, Gu, para dar forma ao Mundo. Gu, a ferramenta divina, tinha a forma de uma espada de ferro. Ensinou o povo a arte de trabalhar o ferro, para que pudessem fazer as suas próprias ferramentas e abrigos, mas infelizmente, Gu não sabia que os humanos iriam fazer uso do seu conhecimento para fazer armas e, com a ajuda da serpente cósmica, Dan, as idéias dos humanos tornaram-se realidade.
Na iconografia, Mawu é representada como uma anciã trajada apenas de um pano cingindo-lhe a cintura, caminhando apoiada num cajado na mão direita e levando um bastão encimado por uma Lua Crescente com as pontas para cima, na mão esquerda.
Mawu era a Deusa Suprema dos Fon de Abomey (República de Benin). Mawu, a Lua, atrai temperaturas mais frias ao mundo Africano.
Mawu não fazia contato direto com os homens, mas delegava seus poderes aos Voduns. Os Voduns constituem uma classe especial de criaturas vivas. Estão acima da humanidade, mas não são divindades, eles são os sinais que emanam do divino em resposta aos desejos espirituais da humanidade. Deste modo, Vodun designa tudo que é sagrado, todo o poder do invisível, que influencia o mundo dos vivos. Examinemos então a dinâmica do Panteão Vodun:
GU, Vodun dos metais, guerra, fogo, e tecnologia.
HEVIOSSO, Vodun que comanda os raios e relâmpagos.
SAGBATA, Vodun da varíola.
DAN, Vodun da riqueza, representado pela serpente do arco-íris..
AGUE, Vodun da caça e protetor das florestas.
AGBE, Vodun dono dos mares.
AYIZAN, Vodun feminino dona da crosta terrestre e dos mercados.
AGASSU, Vodun que representa a linhagem real do Reino do Daomé.
AGUE, Vodun que representa a terra firme.
LEGBA, o caçula de Mawu e Lisa, e representa as entradas e saídas e a sexualidade.
FA, Vodun da Adivinhação e do destino.
Os voduns na África são agrupados em "famílias" chefiadas por um vodun principal, ora representando um elemento ou fenômeno da natureza, ora da cultura. Existem basicamente 4 famílias principais:
Os JI-VODUN, ou "voduns do alto", chefiados por Sogbo (forma basilar de HEVIOSSO ).
Os AYI-VODUN, que são os voduns da terra, chefiados por SABAGTA.
Os TO-VODUN, que são voduns próprios de uma determinada localidade (variados).
Os HENU-VODUN, que são voduns cultuados por certos clãs que se consideram seus descendentes (variados).
No Brasil os voduns são cultuados nos terreiros de Candomblé.
A iniciação ao culto dos voduns é complexa é longa e pode envolver longas caminhadas a santuários e mercados e períodos de reclusão dentro do convento ou terreiro hunkpame, que podem chegar a durar um ano, onde os neófitos são submetidos a uma dura rotina de danças, preces, aprendizagem de línguas sagradas e votos de segredo e obediência.
O nome de Mawu foi utilizado para denominar o Deus Único dos judeus, cristãos e muçulmanos nas línguas ewe-fon, mas dentro de culto dos voduns, Mawu possui seus próprios conventos pelo sul do Benin e do Togo, com culto organizado, sacerdotes, iniciados, etc., como qualquer outro vodun. Os mawunon (sacerdotes de Mawu), apesar da aparente importância da divindade que cultuam, não têm nenhuma ascendência especial sobre os sacerdotes de outros voduns. Suas cores emblemáticas são o branco, o azul e o vermelho.
Mawu chega até nossas vidas para dizermos que é hora de quebramos a rotina e temperá-la com mais Criatividade. Faça algo bom e totalmente diferente hoje. Mawu tinha muito amor à todas as suas crianças. Compre doces e distribua às crianças de rua. Tente também conversar um pouco com elas. Tire de sua volta este paredão de medos e se envolva mais com seu semelhante. Converse com seu colega, seus funcionários, seus filhos, parentes e amigos. Escute o que o outro tem para lhe dizer, pois todos nós somos obras e criação de Mawu. Você entenderá assim, que os vícios que nos condena outros são na verdade os seus próprios. Nunca julgue para não ser julgado, aceite a vida como ela é, pois nada neste mundo material
é eterno.
Texto pesquisado e desenvolvido por
Rosane Volpatto

quarta-feira, junho 14, 2006

Mais um capítulo da Sinha Moça

Novelas da Globo na mira do Ministério Público baiano
Uma audiência pública organizada pelo Ministério Público do Estado da Bahia (MP) nesta sexta-feira, 9, colocou em debate a representação do negro nas novelas veiculadas na emissora Rede Globo, especificamente Sinhá Moça e Cobras e Lagartos, exibidas respectivamente, as 18 e às 19 horas.
O evento reuniu doutores em história, direito, mídia e membros da comunidade para discutir as denúncias oferecidas pelo MP na semana passada contra o núcleo de direção e produção da Rede Globo, responsáveis pela novela Sinhá Moça. A obra foi considerada "racista e desrespeitosa com a dignidade do povo negro". "A novela Sinhá Moça deturpa a história do negro. Os escravos são retratados como seres passivos e acomodados, que se subjugam à condição imposta pela escravidão.
No entanto, não foi isto que aconteceu na realidade. Na época, os negros lutaram muito pela abolição, se organizaram em quilombos e se rebelaram em insurgências, como a Revolta dos Malês. Mas a novela negligencia esta parte da história", contesta o doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC), Vilson Caetano de Souza Júnior.
A coordenadora do curso de pós-graduação em História da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Vlamira Albuquerque, acrescenta que os personagens analisados nas novelas são estereotipados, o que agride a auto-estima da comunidade negra. "Em Cobras e Lagartos, os personagens Ellen (Thaís Araújo) e Foguinho (Lázaro Ramos) são pilantras e de baixo caráter.
Em Sinhá Moça, os negros são fracos e não reagem à escravidão. Estas representações contribuem para que o negro se sinta sempre inferior", comenta. A pesquisadora ainda acrescenta que a novela não tem a obrigação de repetir o conteúdo veiculado na primeira versão, de 1986, e que deve se adequar às novas abordagens do negro na história. "A maneira que o autor conta a história é uma interpretação particular dos fatos narrados, não são fatos absolutos, e as pessoas ficam sem acesso a uma representação fiel do passado". Questionado sobre o direito à liberdade de expressão da obra artística e da não obrigatoriedade de compromisso da ficção com a realidade (uma vez que não se trata de documentário), o promotor de justiça e coordenador do Grupo de Atuação Especial do Combate à Discriminação (GEDIS), Almiro Sena Soares Filho, explica que há dois direitos em conflito no caso: a liberdade de expressão da mídia e a dignidade da pessoa humana do negro. "Nenhum direito é absoluto, mas quando ocorre este tipo de conflito entre dois direitos, temos que apelar para os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade.
No entendimento jurídico, o direito á dignidade supera a liberdade de expressão, pois se trata de um direito constitucional, não apenas legal", esclarece. Mensagens implícitas - Apesar da legítima liberdade de expressão, a telenovela possui um caráter particular na estrutura da sua narrativa: a transmissão de conteúdos implícitos de forma subjetiva. Como os discursos prevalecem sobre os fatos, a ideologia veiculada se materializa subliminarmente no comportamento das pessoas e o racismo se naturaliza nas práticas humanas. Com base nestas concepções, os debatedores defendem que o caráter subjetivo das telenovelas aliado à alta penetração do veículo televisivo no dia-a-dia das pessoas obriga a obra a ter um "compromisso com princípios fundamentais da sociedade". A doutora em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e diretora de Jornalismo da Associação Brasileira de Imprensa, Josette Xisto Cunha, aposta na análise do discurso para uma avaliação equilibrada dos impactos da telenovela na sociedade brasileira. "A representação dos negros nestas telenovelas reforça o tratamento racista e hegemônico que é dado a eles na sociedade. As mensagens são subjetivas e implícitas, mas promovem resultados concretos que perpetuam a discriminação racial. Portanto, não interessa a historiografia da novela Sinhá Moça, mas a forma como a "realidade" é construída na obra. A mídia é co-responsável pela manutenção deste discurso hegemônico e esquece do compromisso que tem na construção das identidades sociais. Assim como um médico pode matar uma pessoa numa mesa de cirurgia, a mídia pode "matar" a auto-estima de um indivíduo. Submetidos ao poder da mídia, os negros ficam impossibilitados de mudar a sua imagem social e são condenados ao discurso dominante". O promotor Almiro Sena, autor do pedido de abertura do inquérito civil, acrescenta que o tema da escravidão foi um crime contra a humanidade e que não pode ser tratado como um tema qualquer. "Para se retratar momentos históricos densos, como a escravidão, o holocausto e genocídios, a licença poética tem que ser relativizada. Não se pode falar destes assuntos como se fossem temas quaisquer", defende. Outras Obras - Na opinião do secretário de Direitos Humanos do Rio de Janeiro, coronel Jorge da Silva, outras obras como a novela "Porto dos Milagres" e o livro "Casa Grande e Senzala", de Gilberto Freyre, também contribuem para a reafirmação do racismo. "Em Porto dos Milagres, a maioria dos atores eram brancos e a novela parecia acontecer no Paraná, enquanto a história original, escrita por Jorge Amado, era toda ambientada na Bahia, com personagens negros e mulatos. O autor, na época, justificou como licença poética, então porque não usam esta liberdade de criação para retratar um casal de negros como patrões de imigrantes italianos nas novelas?", questiona. Segundo ele, Gilberto Freyre também contribui com a manutenção do racismo quando justifica em suas obras que os índios não foram escravizados por serem mais fracos para o trabalho do que os negros. "Isto é uma mentira que contam nas escolas para as crianças e deve ser desconstruída. Os negros foram escravizados porque o tráfico era extremamente rentável e até a igreja católica se beneficiava com o comércio ilegal. A história como é contada sustenta a idéia de que o negro possui uma predisposição genética para a escravidão", dispara.
Para o Coordenador do [Instituto Mídia Étnica], Paulo Rogério Nunes, o programa humorístico "Os Trapalhões" também reafirmava o racismo de forma implícita. "Mussum era um ébrio, sem nenhuma perspectiva de vida. E esta é a forma como o negro geralmente é representado na televisão brasileira. Agora, continua o mesmo discurso no programa, mas com o personagem representado pelo Jacaré (o ex-dançarino da banda baiana É o Tchan)". Paulo deverá encaminhar um ofício à Rede Globo na próxima semana onde solicitará a abordagem em telenovelas da história das comunidades negras Axanti, Palmares e Yorubá na constituição da cultura racial. "Não se pode reproduzir modelos tão antigos de narrativa racista. Sinhá Moça não esclarece nada sobre a história dos negros e há materiais historiográficos bem mais interessantes que nunca são aproveitados".
Foram convidados para participar da audiência o Ministro da Cultura, Gilberto Gil, o Ministro da Justiça, Márcio Thomas Bastos, o Diretor-Geral da Rede Globo, Octavio Florisbal, o autor da novela Sinhá Moça, Benedito Ruy Barbosa, e o presidente da Rede Bahia, Antônio Carlos Magalhães Júnior. Nenhum deles compareceu à audiência. Segundo o promotor, a ação civil não pretende tirar a novela do ar, mas colocar em discussão o conteúdo da obra.
Fonte: Carina Rabelo - Jornal A Tarde On-line

Quanto Vale ou é por quilo?

O titulo é o nome de um filme que considero obrigatório para este determinado público: assistentes sociais, jornalistas, políticos, líderes comunitários, presidente de entidades assistenciais e principalmente pessoas pobres e negras. Qual a razão? Porque o DVD “Quanto Vale ou é por Quilo?” é sem dúvida o melhor filme brasileiro de 2005, apesar da péssima divulgação e nem ter passado nas salas de cinema no interior, mas fala de uma situação que é bom refletir: o Brasil é um dos países campeão em organizações não governamentais assistenciais – elas funcionam, combate a miséria ou já fazem parte do sistema de exploração dos pobres?
O filme do cineasta Sergio Bianchi toma como ponto de partida o conto de Machado de Assis “Pai contra Filho”, pouco conhecido, que fala dos conflitos éticos no período da escravidão entre um capitão do mato, sua esposa, uma escrava fugitiva e grávida e seu proprietário. Leiam no meu blog: www.marconegro.blogspot.com uma cópia, pois o texto é impressionante.
O roteiro sai da escravidão e vem para os dias de hoje, onde vemos que mesmo após a abolição, a maioria dos miseráveis é negra. E para ajudá-los a superar esta situação surgiram as entidades assistenciais com seus milhares de projetos nas periferias. Muitas delas prestam um trabalho sensacional, tanto é que captam com sua boa reputação recursos no exterior. Mas existem outras com suas siglas e endereços tão desconhecidos, que dificultam até a identificação de seu trabalho e sua eficácia.
Há ONGs criadas neste país já com o objetivo de viver apenas de verbas distribuídas dos governos municipal, estadual e federal. Elas têm folhas de pagamento tão onerosas, que às vezes, o dinheiro destinado ao combate à miséria, se perde no meio do custeio delas próprias. No fim, temos Ongs que vivem do combate à fome e não lutam para extingui-la, pois se o fizessem, perderiam a razão de existir. Inclusive fazem suas escolhas políticas com base naqueles prefeitos, governadores, deputados, vereadores, senadores e presidente, que prometam dar mais dinheiro para as entidades.
Muita gente já ouviu falar de ONGs em que seus dirigentes chegam a melhorar de vida, enquanto a dos pobres permanece a mesma por gerações, ou às vezes, piora. Sem duvida alguma: falta fiscalização, mas o corporativismo e a política do “deixa quieto” feita por militantes sérios, que tem medo que os escândalos afetem as entidades idôneas e as doações empresariais. No filme “Quanto Vale ou é por Quilo” uma líder popular descobre que os computadores doados para sua comunidade através de uma ONG são superfaturados. Quando ela vai denunciar o crime é marcada para morrer, pois está atrapalhando o esquema.
Na época da escravidão os negros idosos, eram colocados nas ruas por seus proprietários para mendigar e dar no final do dia o dinheiro para eles. E existiam inclusive as sinhás que prostituíam suas escravas, auferindo lucro na atividade, virando caso de polícia. Hoje, algumas entidades assistenciais não chegam a tanto, mas no pratica, fazem o mesmo.
Assistam ao filme que tem como atores, Lázaro Ramos, Herson Capri, Zezé Motta entre outros. Como disse o cineasta inglês Ken Loach, o cinema não muda o mundo, mas traz inquietações.

terça-feira, junho 13, 2006

RAINHA DE SABÁ




Há séculos que arqueólogos tentam escavar as ruínas de um colossal templo a 120 quilômetros de Sanaa, no Iêmen à procura dos restos mortais da Rainha de Sabá.O santuário, chamado Mahram Bilqis, localiza-se nos arredores de Marib, capital do antigo reino de Sabá. Acredita-se encontrar ali os restos mortais da Rainha.
Quase tudo o que se sabe a seu respeito está contido em treze versículos do Velho Testamento,e em alguns trechos do Corão, o livro sagrado do Islã .
Sabá era conhecido como o país das mil fragrâncias; existiu por 1 800 anos e só desapareceu por volta do ano 600 da era cristã, pouco antes do advento do islamismo.
Na história do povo sabeu radicado no sul da Arábia, Sabá de Biltis foi uma sábia rainha que levou seu povo à pura adoração ao Senhor.Os islâmicos a chamam de Belkis,e os etíopes de Makeda.
Durante séculos, o reino controlou as rotas das caravanas que transportavam o incenso e a mirra, produtos obrigatórios nos templos da Antiguidade. O incenso que produzia era muito procurado. Em Sabá não havia miséria e seu povo era sadio e feliz. A visita da rainha ao rei Salomão em Jerusalém poderia incluir um acordo comercial com Israel, no entanto para os judeus ,sua viagem à Jerusalém tinha por finalidade conscientizar o rei Salomão a não se descuidar de sua importante missão na Terra.
Com portentosa caravana real Biltis a Rainha de Sabá adentrou em Jerusalém levando muito ouro destinado ao Templo do Todo-Poderoso e uma severa advertência a Salomão, não se intimidando com a impertinência de Betsabá que temia perder a sua influência de supermãe, para aquela estrangeira altiva e independente.
“Um ser humano que só recebe, sem nada dar, põe em perigo sua felicidade e sua paz de alma! Muito provavelmente tal pessoa nascerá na pobreza, por ocasião da próxima vida terrena! Pode acontecer até que tenha de passar sua vida como mendiga!"
E Biltes continuou a chamar à atenção de Salomão para não descuidar do povo do qual era regente, preparando-o para a vinda do Enviado de Deus que segundo as profecias nasceria naquele país.
“- Estás enganando Salomão! O saber a respeito do Filho de Deus e o anseio de poder servir a Ele continuam vivendo nas almas, mesmo depois da morte! E esse saber e o anseio despertarão nos novos corpos terrenos, quando nascerem de novo na Terra, provavelmente na época do Enviado de Deus. Imediatamente o reconhecerão e ficarão agradecidos por lhes ser permitido servir a Ele."
Esse encontro em Jerusalém teria ocorrido em 950 a.Cestá registrado na Bíblia .
(primeiro livro dos Reis (Cap. 10, vers 1-13) e segundo das Crônicas (Cap. 9, vers 1-12)).
No Kebra Nagast, conta-se que o Rei Davi, o primeiro governante judeu do chamado Período dos Reis da história dos judeus, desposou Betsabá, uma descendente de judeus negros. O casal gerou o histórico Salomão, que sucedeu o pai e gerou um filho com a Rainha Sheba (a Rainha de Sabá), imperatriz de terras ao sul da Etiópia. Como legado ao herdeiro, Salomão confiou à Rainha um anel de diamante ornamentado com afigura do Leão de Judah.O garoto recebeu o nome de Menelik, Bayna-Lehkem ou, o "Filho do Sábio", e consta que teria visitado as terras de Israel onde conheceu seu pai e com ele foi iniciado no judaísmo. A ele o pai teria confiado a Arca da Aliança contendo os dez mandamentos dados por Moisés.
Foi assim que o Reino de Davi se estabeleceu na Etiópia há três mil anos e a Dinastia, bem como o anel de diamante, atravessaram os séculos até se extinguir com a morte de Haile Selassie. O império abissínio para o qual se aplicava o termo Etiópia se considera descendente do Rei Menelik, filho que Belkis com Salomão. Além dos títulos de rei dos Reis (Negus Nagast) e Senhor dos Senhores, o trono etíope agregava outros tantos atributos que reforçavam a autoridade religiosa do imperador; ele era o Leão de Judah, o Eleito de Deus, o Messias Negro.Essa dinastia reinou na Etiópia até 1974. Ainda neste século o governo do Iêmen não permitia pesquisas arqueológicas na região, não sendo admitida à entrada de estrangeiros no país, embora as ruínas de Marib, antiga capital de Sabá, se estendessem por quilômetros. Finalmente, através dos esforços do paleólogo Wendell Philips, foi dado ao mundo cientificar-se da real existência de Sabá e do esplendor de Marib, sua capital.á cerca de 3.000 anos, a Rainha de Sabá estava indecisa
A Rainha de Sabá da antiguidade até os dias atuais sido tema da pesquisa científica que tenta comprovar sua existência.Sua figura tem alimentado a imaginação de pintores, cineastas, historiadores .É retratada em 1512 nas Pinturas de Lambert Sustris, “A Chegada da Rainha de Sabá ,e por Edward Poynter artista do no século 19”.Foi tema de filmes como Salomão e a Rainha de Sabá, dirigido em 1959 por King Vidor, e As Mil e Uma Noites, de Pier Paolo Pasolini, filmado em 1973.

Material recebido por e-mail da Casa Mulher Negra de Santos – Alzira como sempre, bem informada e informando a todos.

segunda-feira, junho 12, 2006

ORORO OU IANSÁ


Assisti o filme X Men III e depois tive a feliz impressão que a personagem Tempestade pode ter sido criada com base na deusa negra Iansã.
As duas tem poderes quase semelhantes e são africanas. Será que Stan Lee adodou pesquisando sobre Candomblé antes de criá-la?
Mas assistam o filme Halle Barry está linda e com mais fala no filme. Pena para quem leu os HQs perceba algumas falhas incomodas na trama.

sexta-feira, junho 09, 2006

O CAPITULO UM DO HIP HOP


A frase acima é tira do filme Brown Sugar e eu também assumo como minha. Um do estilo de musical, vida e militância. Tal marginal e perseguido como foi o samba no passado, hoje é o Hip Hop em seus quatro elementos: grafite, break, MC e Dj. Mas muitas pessoas perguntam: de onde veio o Hip Hop? Darei algumas pistas a seguir desta batida universal.
Um dos pilares do Hip Hop está no break, que é filho da dança de rua, praticada ao som do funk dos anos 60, e que teve como um de seus maiores expoentes James Brown.
O Rap - rhythm and poetry, ou seja, ritmo e poesia, nasceu nas periferias de Nova Iorque, nos bairros Bronx e Harlem quando os negros norte-americanos, na falta de recursos para grandes instrumentos musicais, passaram ao som de fitas cassetes de funk, disponibilizar seus grandes toca-fitas nas esquinas para em grupo cantar e dançar. Os avôs deste estilo são os “Last Poets” , que eram um grupo de jovens afro-americanos militantes que manifestaram sua indignação social em rimas e percussões, e assim passavam suas propostas.
Alguns foram além e com tocas discos começaram a misturar e criar novas batidas, e assim nascia o DJ. Considerados pioneiros desta arte são Kool D.J. Dee e Kool Herc que logo formou muitos DJs. E o mais notórios desses jovens talentos foi Disco King Mario, que mais tarde passou a ser conhecido como Afrika Bambaataa.
Também foi Kool Herc , jamaiacano lançou o MC – Mestre de Cerimônia ao convidar Coke La Rock para agitar suas apresentações com frases como Ya rock and ya don’t stop!, Rock on my mellow! e To the beat y’all, que hoje podem ser ouvida como clássico em vários samples de rap

Afrika Bambaataa

Afrika desenvolveu um estilo próprio de DJ, iniciando suas apresentações ao som de um trovão e denominando os garotos de Zulu Nation, traduzindo, Nação Zulu, dando pistas de sua consciência negra, ao homenagear uma das etnias africanas mais guerreiras. No dia 12 de novembro de 1973 a Zulu Nation, virou uma ONG ou posse como denominamos na periferia, com o objetivo de ajudar a juventude negra. O lema era: “Paz, União e Diversão”.
Também é creditada a Bambaataa a criação do termo Hip Hop em 1968 afirmava ter se pensado na hora nos dois movimentos corporais que o pessoal fazia quando dançava, ou seja, Hip Hop
Outro grande Dj que surgiu foi Grand Master Flash, que inventou uma sonoridade para que os primeiros rappers pudessem rimar e os b.boys pudessem dançar. Foi ele que lançou o scratch e depois deles, vários scratchings são hoje copiados exaustivamente.

SOUND SYSTEMS – PAI DO RAP
Mas a poesia ritmada de Mano Brown- Racionais Mc não existiria, sem a criatividade dos jamaicanos. Para quem já escutou reggae percebe o improviso de versos. Isso já existia nos anos 60 e era chamado de – sound systems, onde ao ritmo da musica o mestre de cerimônia ia rimando e versando sobre a situação socioeconômica da sociedade local.
Com a imigração de jamaicanos para os Estados Unidos, e sua convivência nos bairros de periferias com afro-americanos, isso influenciou a musica de rua. Um desses imigrantes era justamente
Em 1978 foi gravado o primeiro disco de Hip Hop, do grupo FatBack, com a musica King Tim, em 1978. Nossa, eu só tinha 8 anos de idade. Outro clássico é “Rapper’s Delight”, que é sampleada no maior sucesso de 1979 Good Times e para alguns é o gênese do Rap.

1983 – SURGE O HIP HOP BRASILEIRO
Denominado de break, o Hip Hop brasileiro surgiu na esteira do mito Michael Jackson, que inspirou muitos grupos de dança de rua em São Paulo. Até programas de televisão abriam espaço para a expressão desta arte como na TV Record com Barros de Alencar onde se apresentaram os grandes Poppers como Os Cobras e as Buffalo Girls e a grande final entre Os Dragon’s Breaker’s versus Gang de Rua. Também são desta época os grupos: Back Spin, Jabaquaras Breakers, Red Crazy Crew, Street Warrior’s e Nação Zulu.
O primeiro grupo de dança de rua foi o Electric Boogies. Depois muitos grupos surgiram e se apresentaram nas proximidades da estação de metrô, São Bento. Entre eles um b.boys que viria se tornar um dos maiores MC brasileiro, Thaide , que com seu DJ Humberto, hoje Hum foram os criadores de uma escola de estilo de hip hop.
Não podemos deixar de lembrar de MC Mattar, Marcelo Cirino, hoje fora da cena mas também um dos fundadores do hip hop nacional. Ele teve inclusive um grupo de dança de rua chamado Gang de Rua, composto por Jorge Paixão, Tijolo e Daniel Paixão, o hoje conhecido Criminal D.
Em 1986, acontece um dos primeiros shows de rap. Foi no Teatro Mambembe, e foi roganziado pelo DJ Theo Werneck.
A primeira musica de rap gravada foi do grupo Black Junior – Mas que linda esta? E quem se recorda de Fabio Macari, DJ Cuca e os Dinamic Duo? A primeira coletânea saiu em 1988. "Hip-Hop Cultura de Rua” lançada pela gravadora Eldorado, onde participaram Thaide & DJ Hum, MC/DJ Jack, Código 13 e outros grupos.
Outra pessoa importantíssima para o Hip Hop foi Milton Salles, que em 1989 criou o Movimento Hip Hop Organizado – MH2O, que também foi um dos primeiros produtores do grupo Racionais Mc. Uma das iniciativas que dão dignificam Salles foi seu trabalho na divulgação do Hip Hop e a realização de inúmeras oficinas nas periferias, ensinado os 4 elementos.
Hoje o Rap Nacional é forte e único no mundo, desde a batida tradicional do Racionais MCs ao som suingado de Marcelo D2 que uniu samba e hip hop e deu uma nova vida ao estilo.
Mesmo assim o estilo musical e de vida segue marginal, como era o samba, poucas rádios e emissoras de TV divulgando e os eventos são sempre mal vistos pelas autoridades policiais e políticas, exceto, raras exceções.
Há ainda o temor que semelhante ao samba o Rap seja assimilado no Brasil, assim como foi nos Estados Unidos, pela elite, como forma de divertimento simplesmente, sem sua função principal, alertar a população da periferia sobre as formas de dominação e dar auto-estima e conselhos de organização e união.
O rap é compromisso.

quarta-feira, junho 07, 2006

Pai Contra Mãe, de Machado de Assis

A ESCRAVIDÃO levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-deflandres.
A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber. perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí
ficavam dous pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.
O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa também à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado.
Há meio século, os escravos fugiam com freqüência. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada. Grande parte era apenas repreendida; havia alguém de
casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da
propriedade moderava a ação, porque dinheiro também dói. A fuga repetia-se, entretanto. Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de contrabando, apenas comprado no Valongo, deitava a correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam para casa, não raro, apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcasse aluguel, e iam ganhá-lo fora, quitandando.
Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lho levasse. Punha anúncios nas folhas públicas, com os sinais do fugido, o nome, a roupa, o defeito físico, se o tinha, o bairro por onde andava e a quantia de gratificação. Quando não vinha a quantia, vinha promessa: "gratificar-se-á generosamente", -- ou "receberá uma boa gratificação". Muita vez o anúncio trazia em cima ou ao lado uma vinheta, figura de preto, descalço, correndo, vara ao ombro, e na ponta uma trouxa. Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem o acoutasse.
Ora, pegar escravos fugidios era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas por ser instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implícita das ações reivindicadoras. Ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir também, ainda que por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem.
Cândido Neves, -- em família, Candinho,-- é a pessoa a quem se liga a história de uma fuga, cedeu à pobreza, quando adquiriu o ofício de pegar escravos fugidos. Tinha um defeito grave esse homem, não agüentava emprego nem ofício, carecia de estabilidade; é o que ele chamava caiporismo. Começou por querer aprender tipografia, mas viu cedo que era preciso algum tempo para compor bem, e ainda assim talvez não ganhasse o
bastante; foi o que ele disse a si mesmo. O comércio chamou-lhe a atenção, era carreira boa. Com algum esforço entrou de caixeiro para um armarinho. A obrigação, porém, de atender e servir a todos feria-o na corda do orgulho, e ao cabo de cinco ou seis semanas estava na rua por sua vontade. Fiel de cartório, contínuo de uma repartição anexa ao Ministério do Império, carteiro e outros empregos foram deixados ouco depois de obtidos.
Quando veio a paixão da moça Clara, não tinha ele mais que dívidas, ainda que poucas, porque morava com um primo, entalhador de ofício. Depois de várias tentativas para obter emprego, resolveu adotar o ofício do primo, de que aliás já tomara algumas lições.
Não lhe custou apanhar outras, mas, querendo aprender depressa, aprendeu mal. Não fazia obras finas nem complicadas, apenas garras para sofás e relevos comuns para cadeiras. Queria ter em que trabalhar quando casasse, e o casamento não se demorou muito.
Contava trinta anos. Clara vinte e dous. Ela era órfã, morava com uma tia, Mônica, e cosia com ela. Não cosia tanto que não namorasse o seu pouco, mas os namorados apenas queriam matar o tempo; não tinham outro empenho. Passavam às tardes, olhavam muito para ela, ela para eles, até que a noite a fazia recolher para a costura. O que ela notava é que nenhum deles lhe deixava saudades nem lhe acendia desejos.
Talvez nem soubesse o nome de muitos. Queria casar, naturalmente. Era, como lhe dizia
a tia, um pescar de caniço, a ver se o peixe pegava, mas o peixe passava de longe; algum que parasse, era só para andar à roda da isca, mirá-la, cheirá-la, deixá-la e ir a outras.
O amor traz sobrescritos. Quando a moça viu Cândido Neves, sentiu que era este o possível marido, o marido verdadeiro e único. O encontro deu-se em um baile; tal foi-- para lembrar o primeiro ofício do namorado, -- tal foi a página inicial daquele livro, que tinha de sair mal composto e pior brochado. O casamento fez-se onze meses depois, e foi a mais bela festa das relações dos noivos. Amigas de Clara, menos por amizade que por inveja, tentaram arredá-la do passo que ia dar. Não negavam a gentileza do noivo,nem o amor que lhe tinha, nem ainda algumas virtudes; diziam que era dado em demasia a patuscadas.
--Pois ainda bem, replicava a noiva; ao menos, não caso com defunto. --Não, defunto não; mas é que... Não diziam o que era. Tia Mônica, depois do casamento, na casa pobre onde eles se foram abrigar, falou-lhes uma vez nos filhos possíveis. Eles queriam um, um só, embora viesse agravar a necessidade.
--Vocês, se tiverem um filho, morrem de fome, disse a tia à sobrinha.
--Nossa Senhora nos dará de comer, acudiu Clara. Tia Mônica devia ter-lhes feito a advertência, ou ameaça, quando ele lhe foi pedir a mão da moça; mas também ela era amiga de patuscadas, e o casamento seria uma festa, como foi. A alegria era comum aos três. O casal ria a propósito de tudo. Os mesmos nomes eram
objeto de trocados, Clara, Neves, Cândido; não davam que comer, mas davam que rir, e o riso digeria-se sem esforço.
Ela cosia agora mais, ele saía a empreitadas de uma cousa e outra; não tinha emprego certo. Nem por isso abriam mão do filho. O filho é que, não sabendo daquele desejo específico, deixava-se estar escondido na eternidade. Um dia. porém, deu sinal de si a criança; varão ou fêmea, era o fruto abençoado que viria trazer ao casal a suspirada ventura. Tia Mônica ficou desorientada, Cândido e Clara riram dos seus sustos. --Deus nos há de ajudar, titia, insistia a futura mãe.
A notícia correu de vizinha a vizinha. Não houve mais que espreitar a aurora do dia grande. A esposa trabalhava agora com mais vontade, e assim era preciso, uma vez que, além das costuras pagas, tinha de ir fazendo com retalhos o enxoval da criança. À força de pensar nela, vivia já com ela, media-lhe fraldas, cosia-lhe camisas. A porção era escassa, os intervalos longos. Tia Mônica ajudava, é certo, ainda que de má vontade.
--Vocês verão a triste vida, suspirava ela. --Mas as outras crianças não nascem também?
perguntou Clara. --Nascem, e acham sempre alguma cousa certa que comer, ainda que pouco... --Certa como? --Certa, um emprego, um ofício, uma ocupação, mas em que é que o pai dessa infeliz criatura que aí vem gasta o tempo?
Cândido Neves, logo que soube daquela advertência, foi ter com a tia, não áspero mas muito menos manso que de costume, e lhe perguntou se já algum dia deixara de comer.
--A senhora ainda não jejuou senão pela semana santa, e isso mesmo quando não quer jantar comigo. Nunca deixamos de ter o nosso bacalhau... --Bem sei, mas somos três. -- Seremos quatro. --Não é a mesma cousa. -- Que quer então que eu faça, além do que faço? -- Alguma cousa mais certa. Veja o marceneiro da esquina, o homem do armarinho, o tipógrafo que casou sábado, todos têm um emprego certo... Não fique zangado; não digo que você seja vadio, mas a ocupação que escolheu é vaga. Você passa semanas sem vintém. -- Sim, mas lá vem uma noite que compensa tudo, até de sobra. Deus não me abandona, e preto fugido sabe que comigo não brinca; quase nenhum resiste, muitos entregam-se logo.
Tinha glória nisto, falava da esperança como de capital seguro. Daí a pouco ria, e fazia rir à tia, que era naturalmente alegre, e previa uma patuscada no batizado.
Cândido Neves perdera já o ofício de entalhador, como abrira mão de outros muitos, melhores ou piores. Pegar escravos fugidos trouxe-lhe um encanto novo. Não obrigava a estar longas horas sentado. Só exigia força, olho vivo, paciência, coragem e um pedaço de corda. Cândido Neves lia os anúncios, copiava-os, metia-os no bolso e saía às pesquisas. Tinha boa memória. Fixados os sinais e os costumes de um escravo fugido,gastava pouco tempo em achá-lo, segurá-lo, amarrá-lo e levá-lo. A força era muita, a agilidade também. Mais de uma vez, a uma esquina, conversando de cousas remotas,via passar um escravo como os outros, e descobria logo que ia fugido, quem era, o nome, o dono, a casa deste e a gratificação; interrompia a conversa e ia atrás do vicioso.
Não o apanhava logo, espreitava lugar azado, e de um salto tinha a gratificação nas mãos. Nem sempre saía sem sangue, as unhas e os dentes do outro trabalhavam, mas geralmente ele os vencia sem o menor arranhão.
Um dia os lucros entraram a escassear. Os escravos fugidos não vinham já, como dantes, meter-se nas mãos de Cândido Neves. Havia mãos novas e hábeis. Como o negócio crescesse, mais de um desempregado pegou em si e numa corda, foi aos jornais, copiou anúncios e deitou-se à caçada. No próprio bairro havia mais de um competidor.
Quer dizer que as dívidas de Cândido Neves começaram de subir, sem aqueles pagamentos prontos ou quase prontos dos primeiros tempos. A vida fez-se difícil e zura.
Comia-se fiado e mal; comia-se tarde. O senhorio mandava pelo aluguéis.
Clara não tinha sequer tempo de remendar a roupa ao marido, tanta era a necessidade de coser para fora. Tia Mônica ajudava a sobrinha, naturalmente. Quando ele chegava à tarde, via-se-lhe pela cara que não trazia vintém. Jantava e saía outra vez, à cata de algum fugido. Já lhe sucedia, ainda que raro, enganar-se de pessoa, e pegar em escravo fiel que ia a serviço de seu senhor; tal era a cegueira da necessidade. Certa vez capturou um preto livre; desfez-se em desculpas, mas recebeu grande soma de murros que lhe deram os parentes do homem.
--É o que lhe faltava! exclamou a tia Mônica, ao vê-lo entrar, e depois de ouvir narrar o equívoco e suas conseqüências. Deixe-se disso, Candinho; procure outra vida, outro emprego.
Cândido quisera efetivamente fazer outra cousa, não pela razão do conselho, mas por simples gosto de trocar de ofício; seria um modo de mudar de pele ou de pessoa. O pior é que não achava à mão negócio que aprendesse depressa.
A natureza ia andando, o feto crescia, até fazer-se pesado à mãe, antes de nascer.
Chegou o oitavo mês, mês de angústias e necessidades, menos ainda que o nono, cuja narração dispenso também. Melhor é dizer somente os seus efeitos. Não podiam ser mais amargos.
--Não, tia Mônica! bradou Candinho, recusando um conselho que me custa escrever, quanto mais ao pai ouvi-lo. Isso nunca!
Foi na última semana do derradeiro mês que a tia Mônica deu ao casal o conselho de levar a criança que nascesse à Roda dos enjeitados. Em verdade, não podia haver palavra mais dura de tolerar a dous jovens pais que espreitavam a criança, para beijá-la, guardá-la, vê-la rir, crescer, engordar, pular... Enjeitar quê? enjeitar como? Candinho arregalou os olhos para a tia, e acabou dando um murro na mesa de jantar. A mesa, que era velha e desconjuntada, esteve quase a se desfazer inteiramente. Clara interveio. -- Titia não fala por mal, Candinho. --Por mal? replicou tia Mônica. Por mal ou por bem, seja o que for, digo que é o melhor que vocês podem fazer. Vocês devem tudo; a carne e o feijão vão faltando. Se não aparecer algum dinheiro, como é que a família há de aumentar? E depois, há tempo; mais tarde, quando o senhor tiver a vida mais segura, os filhos que vierem serão recebidos com o mesmo cuidado que este ou maior. Este será bem criado, sem lhe faltar nada. Pois então a Roda é alguma praia ou monturo? Lá não se mata ninguém, ninguém morre à toa, enquanto que aqui é certo morrer, se viver à míngua. Enfim... Tia Mônica terminou a frase com um gesto de ombros, deu as costas e foi meter-se na alcova. Tinha já insinuado aquela solução, mas era a primeira vez que o fazia com tal franqueza e calor,-- crueldade, se preferes. Clara estendeu a mão ao marido, como a amparar-lhe o ânimo; Cândido Neves fez uma careta, e chamou maluca à tia, em voz baixa. A ternura dos dous foi interrompida por alguém que batia à porta da rua.
--Quem é? perguntou o marido. --Sou eu.
Era o dono da casa, credor de três meses de aluguel, que vinha em pessoa ameaçar o inquilino. Este quis que ele entrasse.
--Não é preciso... --Faça favor.
O credor entrou e recusou sentar-se, deitou os olhos à mobília para ver se daria algo à penhora; achou que pouco. Vinha receber os aluguéis vencidos, não podia esperar mais;se dentro de cinco dias não fosse pago, pô-lo-ia na rua. Não havia trabalhado para regalo dos outros. Ao vê-lo, ninguém diria que era proprietário; mas a palavra supria o que faltava ao gesto, e o pobre Cândido Neves preferiu calar a retorquir. Fez uma inclinação de promessa e súplica ao mesmo tempo. O dono da casa não cedeu mais.
--Cinco dias ou rua! repetiu, metendo a mão no ferrolho da porta e saindo.
Candinho saiu por outro lado. Nesses lances não chegava nunca ao desespero, contava com algum empréstimo, não sabia como nem onde, mas contava. Demais, recorreu aos anúncios. Achou vários, alguns já velhos, mas em vão os buscava desde muito. Gastou algumas horas sem proveito, e tornou para casa. Ao fim de quatro dias, não achou recursos; lançou mão de empenhos, foi a pessoas amigas do proprietário, não
alcançando mais que a ordem de mudança.
A situação era aguda. Não achavam casa, nem contavam com pessoa que lhes emprestasse alguma; era ir para a rua. Não contavam com a tia. Tia Mônica teve arte de alcançar aposento para os três em casa de uma senhora velha e rica, que lhe prometeu emprestar os quartos baixos da casa, ao fundo da cocheira, para os lados de um pátio.
Teve ainda a arte maior de não dizer nada aos dous, para que Cândido Neves, no desespero da crise começasse por enjeitar o filho e acabasse alcançando algum meio seguro e regular de obter dinheiro; emendar a vida, em suma. Ouvia as queixas de Clara,sem as repetir, é certo, mas sem as consolar. No dia em que fossem obrigados a deixar a casa, fá-los-ia espantar com a notícia do obséquio e iriam dormir melhor do que cuidassem.
Assim sucedeu. Postos fora da casa, passaram ao aposento de favor, e dous dias depois nasceu a criança. A alegria do pai foi enorme, e a tristeza também. Tia Mônica insistiu em dar a criança à Roda. "Se você não a quer levar, deixe isso comigo; eu vou à Rua dos Barbonos." Cândido Neves pediu que não, que esperasse, que ele mesmo a levaria.
Notai que era um menino, e que ambos os pais desejavam justamente este sexo. Mal lhe deram algum leite; mas, como chovesse à noite, assentou o pai levá-lo à Roda na noite seguinte.
Naquela reviu todas as suas notas de escravos fugidos . As gratificações pela maior parte eram promessas; algumas traziam a soma escrita e escassa. Uma, porém, subia a cem mil-réis. Tratava-se de uma mulata; vinham indicações de gesto e de vestido.
Cândido Neves andara a pesquisá-la sem melhor fortuna, e abrira mão do negócio; imaginou que algum amante da escrava a houvesse recolhido. Agora, porém, a vista
nova da quantia e a necessidade dela animaram Cândido Neves a fazer um grande esforço derradeiro. Saiu de manhã a ver e indagar pela Rua e Largo da Carioca, Rua do Parto e da Ajuda, onde ela parecia andar, segundo o anúncio. Não a achou; apenas um farmacêutico da Rua da Ajuda se lembrava de ter vendido uma onça de qualquer droga, três dias antes, à pessoa que tinha os sinais indicados. Cândido Neves parecia falar como dono da escrava, e agradeceu cortesmente a notícia. Não foi mais feliz com outros fugidos de gratificação incerta ou barata.
Voltou para a triste casa que lhe haviam emprestado. Tia Mônica arranjara de si mesma a dieta para a recente mãe, e tinha já o menino para ser levado à Roda. O pai, não obstante o acordo feito, mal pôde esconder a dor do espetáculo. Não quis comer o que tia Mônica lhe guardara; não tinha fome, disse, e era verdade. Cogitou mil modos de ficar com o filho; nenhum prestava. Não podia esquecer o próprio albergue em que vivia. Consultou a mulher, que se mostrou resignada. Tia Mônica pintara-lhe a criação do menino; seria maior a miséria, podendo suceder que o filho achasse a morte sem recurso. Cândido Neves foi obrigado a cumprir a promessa; pediu à mulher que desse ao filho o resto do leite que ele beberia da mãe. Assim se fez; o pequeno adormeceu, o pai pegou dele, e saiu na direção da Rua dos Barbonos.
Que pensasse mais de uma vez em voltar para casa com ele, é certo; não menos certo é que o agasalhava muito, que o beijava, que cobria o rosto para preservá-lo do sereno.
Ao entrar na Rua da Guarda Velha, Cândido Neves começou a afrouxar o passo. --Hei de entregá-lo o mais tarde que puder, murmurou ele. Mas não sendo a rua infinita ou sequer longa, viria a acabá-la; foi então que lhe ocorreu entrar por um dos becos que ligavam aquela à Rua da Ajuda. Chegou ao fim do beco e, indo a dobrar à direita, na direção do Largo da Ajuda, viu do lado oposto um vulto de mulher; era a mulata fugida.
Não dou aqui a comoção de Cândido Neves por não podê-lo fazer com a intensidade real. Um adjetivo basta; digamos enorme. Descendo a mulher, desceu ele também; a poucos passos estava a farmácia onde obtivera a informação, que referi acima. Entrou, achou o farmacêutico, pediu-lhe a fineza de guardar a criança por um instante; viria buscá-la sem falta.
--Mas... Cândido Neves não lhe deu tempo de dizer nada; saiu rápido, atravessou a rua, até ao ponto em que pudesse pegar a mulher sem dar alarma. No extremo da rua, quando ela ia a descer a de S. José, Cândido Neves aproximou-se dela. Era a mesma, era a mulata fujona. --Arminda! bradou, conforme a nomeava o anúncio.
Arminda voltou-se sem cuidar malícia. Foi só quando ele, tendo tirado o pedaço de corda da algibeira, pegou dos braços da escrava, que ela compreendeu e quis fugir. Era já impossível. Cândido Neves, com as mãos robustas, atava-lhe os pulsos e dizia que andasse. A escrava quis gritar, parece que chegou a soltar alguma voz mais alta que de costume, mas entendeu logo que ninguém viria libertá-la, ao contrário. Pediu então que a soltasse pelo amor de Deus.
--Estou grávida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe por amor dele que me solte; eu serei tua escrava, vou servi-lo pelo tempo que quiser. Me solte, meu senhor moço! -- Siga! repetiu Cândido Neves. --Me solte! --Não quero demoras; siga!
Houve aqui luta, porque a escrava, gemendo, arrastava-se a si e ao filho. Quem passava ou estava à porta de uma loja, compreendia o que era e naturalmente não acudia.
Arminda ia alegando que o senhor era muito mau, e provavelmente a castigaria com açoutes,--cousa que, no estado em que ela estava, seria pior de sentir. Com certeza, ele lhe mandaria dar açoutes.
--Você é que tem culpa. Quem lhe manda fazer filhos e fugir depois? perguntou Cândido Neves.
Não estava em maré de riso, por causa do filho que lá ficara na farmácia, à espera dele.
Também é certo que não costumava dizer grandes cousas. Foi arrastando a escrava pela Rua dos Ourives, em direção à da Alfândega, onde residia o senhor. Na esquina desta a luta cresceu; a escrava pôs os pés à parede, recuou com grande esforço, inutilmente. O que alcançou foi, apesar de ser a casa próxima, gastar mais tempo em lá chegar do que devera. Chegou, enfim, arrastada, desesperada, arquejando. Ainda ali ajoelhou-se, mas em vão. O senhor estava em casa, acudiu ao chamado e ao rumor.
--Aqui está a fujona, disse Cândido Neves. -- É ela mesma. --Meu senhor! --Anda, entra... Arminda caiu no corredor. Ali mesmo o senhor da escrava abriu a carteira e tirou os cem mil-réis de gratificação. Cândido Neves guardou as duas notas de cinqüenta milréis,enquanto o senhor novamente dizia à escrava que entrasse. No chão, onde jazia, levada do medo e da dor, e após algum tempo de luta a escrava abortou.
O fruto de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os gemidos da mãe e os gestos de desespero do dono. Cândido Neves viu todo esse espetáculo. Não sabia que horas eram. Quaisquer que fossem, urgia correr à Rua da Ajuda, e foi o que ele fez sem querer conhecer as conseqüências do desastre.
Quando lá chegou, viu o farmacêutico sozinho, sem o filho que lhe entregara. Quis esganá-lo. Felizmente, o farmacêutico explicou tudo a tempo; o menino estava lá dentro com a família, e ambos entraram. O pai recebeu o filho com a mesma fúria com que pegara a escrava fujona de há pouco, fúria diversa, naturalmente, fúria de amor.
Agradeceu depressa e mal, e saiu às carreiras, não para a Roda dos enjeitados, mas para a casa de empréstimo com o filho e os cem mil-réis de gratificação. Tia Mônica, ouvida a explicação, perdoou a volta do pequeno, uma vez que trazia os cem mil-réis. Disse, é verdade, algumas palavras duras contra a escrava, por causa do aborto, além da fuga.
Cândido Neves, beijando o filho, entre lágrimas, verdadeiras, abençoava a fuga e não se lhe dava do aborto.
--Nem todas as crianças vingam, bateu-lhe o coração.
Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.

quarta-feira, maio 24, 2006

Frei David, liderança do Movimento Negro Brasileiro


Ele pode não admitir, devido a sua formação religiosa e sua naturalidade mineira, mas o frei franciscano David Raimundo dos Santos, presidente da Rede de Cursinhos Populares Educafro, é o novo líder do Movimento Negro no Brasil. Com sua determinação e habilidade política tem conseguido fazer o enfrentamento social para conseguir a aprovação de ações afirmativas nos setores público e privado.
O Frei David nasceu no dia 17 de outubro de 1952, na cidade mineira de Nanuque, filho de Manuel Rosalino dos Santos Maria Pereira Gomes, mas passou parte de sua infância e juventude no estado do Espírito Santo. Depois, seguido para o estado do Rio de Janeiro, onde em Petrópolis, fez sua formação religiosa sacerdotal cursando Teologia e Filosofia.
Desde o Seminário Franciscano de Petrópolis, Frei David sofreu a influência da Teologia da Libertação, que pregava que a Igreja Católica deveria estar mais próxima dos setores da população pobre, e foi o que ele fez por mais de 16 anos, mas também teve a conscientização de que a maioria dos excluídos é negra. E isso despertou mais ainda sua militância negra, organizando na Baixada Fluminense a formação de agentes da Pastoral do Negro. Também foi eleito, tempos depois, membro da Secretaria Executiva Latino-Americana da Pastoral Afro-Latina Americana e Caribenha.
No Brasil, ele ajudou em no desenvolvimento da Teologia Negra, onde a fé cristã é discutida sob uma ótica africana e respeitando a diversidade religiosa dos afro-brasileiros. Ele lançou pela Editora Vozes o Calendário Beleza Negra e as Coleções Negras em Libertação.
No inicio dos anos 90, Frei David, descobriu que juntamente com agentes pastorais que havia uma razão para o empobrecimento da população negra, a dificuldade na formação escolar. Por isso, foi criada o Educafro – Cursinho Pré-Vestibular destinado a negros e carentes.
Nos debates no Senado Federal e na Câmara dos Deputados ele participou ativamente, juntamente com integrantes do Educafro para aprovação das cotas. Se a proposta for aprovada este ano, será devidas a grande pressão popular e política que ele realiza. Junto aos bancos e lojas de São Paulo, ele realizou manifestações que conseguiram sensibilizar banqueiros e comerciantes na contratação de mais trabalhadores negros.
Em um período onde há muitas pessoas se auto proclamam líderes do Movimento Negro, chegando ao erro estratégico de dividir uma grande manifestação em prol das ações afirmativas, o religioso franciscano parece um das poucas cabeças negras a ter a lucidez de um Martin Luther King Junior e a radicalidade de um Malcolm X, com aceitação em qualquer ala política. Principalmente, por que não é candidato a nenhum cargo eletivo.
É bom citar que há um número considerável de lideres jovens, oriundos do Educafro, que tem ajuda a renovar a militância do Movimento Negro e tornando-se o diferencial entre outros militantes, pois acreditam fielmente na falta de ambição do Frei David, que assim como o mártir Padre Josímo, dá a vida pelo o que luta.

terça-feira, maio 09, 2006

A polêmica Carta da Princesa Isabel



Acho oportuno oferecer a todos a polêmica carta da Princesa Isabel ao Visconde de Santa Rita, onde pede Reforma Agrária para as pessoas negras recém libertas:

11 de agosto de 1889 - Paço Isabel
Corte midi
Caro Senhor Visconde de Santa Victória
Fui informada por papai que me colocou a par da intenção e do envio dos fundos de seu Banco em forma de doação como indenização aos ex-escravos libertos em 13 de Maio do ano passado, e o sigilo que o Senhor pediu ao presidente do gabinete para não provocar maior reação violenta dos escravocratas. Deus nos proteja dos escravocratas e os militares saibam deste nosso negócio, pois seria o fim do atual governo e mesmo do Império e da Casa de Bragança no Brasil. Nosso amigo Nabuco, além dos Srs. Rebouças, Patrocínio e Dantas, poderem dar auxílio a partir do dia 20 de Novembro quando as Câmaras se reunirem para a posse da nova Legislatura. Com o apoio dos novos deputados e os amigos fiéis de papai no Senado será possível realizar as mudanças que sonho para o Brasil!
Com os fundos doados pelo Senhor teremos oportunidade de colocar estes ex-escravos, agora livres, em terras suas próprias trabalhando na agricultura e na pecuária e delas tirando seus próprios proventos. Fiquei mais sentida ao saber por papai que esta doação significou mais de 2/3 da venda dos seus bens, o que demonstra o amor devotado do Senhor pelo Brasil. Deus proteja o Senhor e todo a sua família para sempre!
Foi comovente a queda do Banco Mauá em 1878 e a forma honrada e proba, porém infeliz, que o Senhor e seu estimado sócio, o grande Visconde de Mauá aceitaram a derrocada, segundo papai tecida pelos ingleses de forma desonesta e corrupta. A queda do Sr. Mauá significou uma grande derrota para o nosso Brasil!
Mas não fiquemos mais no passado, pois o futuro nos será promissor, se os republicanos e escravocratas nos permitirem sonhar mais um pouco. Pois as mudanças que tenho em mente como o senhor já sabe, vão além da liberação dos cativos. Quero agora me dedicar a libertar as mulheres dos grilhões do cativeiro domestico, e isto será possível através do Sufrágio Feminino! Si a mulher pode reinar também pode votar!
Agradeço vossa ajuda de todo meu coração e que Deus o abençoe!
Mando minhas saudações a Madame la Vicomtesse de Santa Vitória e toda a família.
Muito de coração
ISABEL

Mas afirmo que em História, nada pode ser lido isoladamente. É preciso estudar mais profundamente o período em que foi escrito. Qual o clima entre monarquista, republicanos e escravocratas?
E uma dúvida bem oportuna: o Visconde tinha reservado um bom dinheiro para ajudar os ex-escravos. Para onde foi esta grana? Sumiu entre a derrubada da Monarquia e Proclamação da República?

quarta-feira, abril 05, 2006

Chega de Sinhá Moça!



No dia 13 de março, estreou na Rede Globo, a novela Sinhá Moça, uma reedição do sucesso de 1986. A história toda é baseada no livro de Maria Dezonne Pacheco Fernandes, e é uma espécie de Romeu e Julieta abolicionista. Débora Falabella será a Sinhá, que amamentada por uma negra escravizada - Bá, desenvolve um sentimento de piedade pelo povo negro e isso a atrairá ao jovem Rodolfo, um abolicionista, vivido por Danton Mello.Sinhá Moça já foi antes encenada nas telas em 1953, através da Companhia de Cinema Vera Cruz, com os Eliane Lage e Anselmo Duarte nos papeis principais.
A novela é um desproposito, nesse período em que estamos lutando nas salas de aula, para mudar a forma como o negro é retratado na História. Já há centenas de livros provando que ninguém ficou senzala sofrendo, esperando a sorte de nascer uma Sinhá Moça para nos libertar. O processo foi protagonizado pelo afro brasileiro de duas formas: Revolucionário - criando quilombo, semelhante ao de Palmares; e Abolicionista como Luis Gama, José do Patrocínio, André Rebouças e muitos outros.
Tudo é execrável na novela. A palavra “Sinhá” vem de sinhazinha, a filha do dono de escravos. Não é algo para se orgulhar. Depois, o fato dela ser amamentada pela ama de leite, não é algo singelo. As mulheres negras eram obrigadas a desmamar seus recém nascidos para dar leite à filha do senhor de escravo. Para exemplificar: no dia 1 de agosto de 1850, foi publicado o seguinte anuncio no Jornal do Comércio, no Rio de Janeiro: “Vende-se uma preta para ama-de-leite parida de sete dias com muito e bom leite”. Os bebes nem eram citados e em muitos casos, ficava a critério do comprador decidir seu destino.
E a exemplo do que aconteceu em 1986, a novela deve terminar na Abolição da Escravidão, com o povo na senzala dando “vivas” à Princesa Isabel, e por tabela ao casal protagonistas. Outro erro: Ela apenas sancionou uma lei já aprovada no Poder Legislativo, e em sua pior versão. Existiram propostas de indenização das pessoas escravizadas com terras, mas não foram aprovadas.
Sinhá Moça e Escrava Isaura são novelas que serviram no período da censura militar, para denunciar, através da ficção o sofrimento do povo brasileiro. Mas hoje, em plena democracia, os enredos estão ultrapassados e é necessária outra abordagem.
O remake só está servindo para em muitos casos, para baixar a auto-estima das crianças negras nas escolas, que não sabem dos heróis e heroínas que têm. Por que não contar a história de Zumbi ou da Rainha Nzinga e outras figuras negras?
Talvez o que o novelista Benedito Ruy Barbosa quer é que acreditemos que a escravidão nem tão foi ruim assim. Tínhamos a Débora Falabella e a Patrícia Pillar para nos defender. Que sorte a nossa!

O QUE É SAMBA ROCK?


A gente pra viver bem nesse mundo
tem que ser um pouco mais inteligente,
como já dizia a minha velha avó:
"Macaco velho não põe a mão na cumbuca!"
Com o meu avô eu aprendi
que não se cutuca onça com a vara curta!
Mas quando a minha mãe vinha me dizer
pra tomar cuidado com esse mundo louco
Eu não quis ouvir
Eu não quis ouvir

Só fui ouvir é de um tio malandro que eu tenho
quando ele me dizia:
"Com'é que é meu?!"

Segura a nega
Segura a nega, viu?
Segura nega!
Segura a nega, viu? Clube do Balanço - Segura a Nega

É difícil responder esta pergunta. Dá para descrever o que é uma batida de um tamborim? Mas tentarei falar o que é o samba-rock, ritmo que redescobri através do primeiro CD de um grupo paulista denominado Clube do Balanço. O nome "samba-rock foi dito pela primeira vez por Jackson do Pandeiro, na música Chiclete com Banana, de Gordurinha.
Os primórdios do samba-rock começa nos anos 50, numa atitude contra o apartheid racial que informalmente existia no país. Impedidos de entrar nos bailes com orquestras chiques ou pelo valor do ingresso ou simplesmente pelo segurança, o nosso povo começou a colocar o som através dos que chamaremos hoje dos pais dos DJs. A musica era executada através de uma seleção de discos ou mesmo fitas cassetes.
Neste clima o pessoal foi copiado o estilo de dançar twist norte-americano, num estilo que misturava também o swing do samba. Algo único e novo.

Ritmo
O inventor do samba-rock como música é Jorge Ben Jor, que nega até hoje. Há que teorize sobre o arranjador Sergio Mendes, que misturou samba, bossa nova e jazz. Erasmo Carlos também foi identificado no teste de DNA do ritmo.
Mas o grande Jorge Ben no disco “O Bidu” é realmente o pai do samba-rock. Depois uma geração de músico adaptou o samba, que era tradicionalmente tocado em compasso binário (2/4), ao compasso quaternário (4/4) do rock. Além de usar instrumentos elétricos, como guitarras.
Ainda no fim dos anos 60 outros exemplos de como o samba poderia caber na moldura rítmica do rock-soul: a Pilatragem de Carlos Imperial e Wilson Simonal (que fez de País Tropical, de Jorge Ben Jor, um de seus cavalos de batalha) e a farra orquestral do maestro Erlon Chaves (que concorreu em 1970, no V Festival Internacional da Canção, da Rede Globo, cantando Eu Quero Mocotó, também de Jorge, acompanhado por sua Banda Veneno).
Nos anos 70, a voz potente de Tim Maia popularizaria o samba-soul, emplacando dois sucessos nesse estilo: Réu Confesso e Gostava Tanto de Você. Jorge Ben Jor teve uma queda para o funk a partir do disco A Banda do Zé Pretinho (1978), mas artistas por ele diretamente influenciados seguiram a sua orientação anterior, com muito sucesso em bailes do subúrbio carioca. É o caso de Bebeto (O Negócio é Você Menina, Flamengo) e de Serginho Meriti.
Em São Paulo, os bailes de periferia também ferviam ao som do samba-rock-suíngue, de nomes como o Trio Mocotó (que originalmente acompanhava Jorge Ben Jor), Copa 7, Luiz Vagner (que foi do grupo de jovem guarda Os Brasas, homenageado por Ben Jor com a música Luiz Vagner Guitarreiro), Branca Di Neve (falecido em 1989), Carlos Dafé, Dhema, Franco (também ex-Os Brasas), Abílio Manoel e Hélio Matheus.
De fins dos 60 para os 70 são gravadas as músicas que iriam se tornar os grandes clássicos dos bailes: "Pena verde" e "Luisa manequim", de Abilio Manuel, "Zamba-bem", de Marku Ribas, "Para sempre sem Bronquear", pelos Golden Boys, "Guitarreiro", de Luiz wagner. Os anos 70 trazem a fase áurea dos Originais do Samba, com sambas swingados como "Falador Passa Mal" e "Do Lado Direito da Rua Direita". Em fins dos anos 70, o disco Baiano e os Novos Caetanos, traz a célebre "Vô Batê pra Tú", de Arnaud rodrigues e Orlandivo. Nomes como Erlon Chaves, Bebeto, Di Mello, Orlandivo, Elizabeth Viana, Dóris Monteiro, nem sempre devidamente lembrados quando se fala se MPB, são os grandes nomes quando o assunto é samba-rock. Já no começo dos anos 80, o grande Branca de Neve grava dois discos antológicos, deixando várias pedradas como "Kid Brilhantina" e "Nego Dito" (uma reconstrução, ou desconstrução fantástica de Itamar Assumpção). Vale dizer que o célebre hit "Não Adianta", com o Trio Mocotó, foi gravado nos anos 70, mas só chegou aqui pelos 80, se tornando um sucesso.
O tremendão Erasmo Carlos contribuiu para o estilo, marcando presença com os clássicos "Mané João" e "Coqueiro Verde", imortalizada para sempre como samba-rock pelo Trio Mocotó. A nossa bossa nova, relida e misturada com o blues e com o jazz pelos gringos é outra fonte de hits dos bailes, a exemplo de "Soul Bossa Nova", com a orquestra de Quincy Jones.