terça-feira, junho 13, 2006

RAINHA DE SABÁ




Há séculos que arqueólogos tentam escavar as ruínas de um colossal templo a 120 quilômetros de Sanaa, no Iêmen à procura dos restos mortais da Rainha de Sabá.O santuário, chamado Mahram Bilqis, localiza-se nos arredores de Marib, capital do antigo reino de Sabá. Acredita-se encontrar ali os restos mortais da Rainha.
Quase tudo o que se sabe a seu respeito está contido em treze versículos do Velho Testamento,e em alguns trechos do Corão, o livro sagrado do Islã .
Sabá era conhecido como o país das mil fragrâncias; existiu por 1 800 anos e só desapareceu por volta do ano 600 da era cristã, pouco antes do advento do islamismo.
Na história do povo sabeu radicado no sul da Arábia, Sabá de Biltis foi uma sábia rainha que levou seu povo à pura adoração ao Senhor.Os islâmicos a chamam de Belkis,e os etíopes de Makeda.
Durante séculos, o reino controlou as rotas das caravanas que transportavam o incenso e a mirra, produtos obrigatórios nos templos da Antiguidade. O incenso que produzia era muito procurado. Em Sabá não havia miséria e seu povo era sadio e feliz. A visita da rainha ao rei Salomão em Jerusalém poderia incluir um acordo comercial com Israel, no entanto para os judeus ,sua viagem à Jerusalém tinha por finalidade conscientizar o rei Salomão a não se descuidar de sua importante missão na Terra.
Com portentosa caravana real Biltis a Rainha de Sabá adentrou em Jerusalém levando muito ouro destinado ao Templo do Todo-Poderoso e uma severa advertência a Salomão, não se intimidando com a impertinência de Betsabá que temia perder a sua influência de supermãe, para aquela estrangeira altiva e independente.
“Um ser humano que só recebe, sem nada dar, põe em perigo sua felicidade e sua paz de alma! Muito provavelmente tal pessoa nascerá na pobreza, por ocasião da próxima vida terrena! Pode acontecer até que tenha de passar sua vida como mendiga!"
E Biltes continuou a chamar à atenção de Salomão para não descuidar do povo do qual era regente, preparando-o para a vinda do Enviado de Deus que segundo as profecias nasceria naquele país.
“- Estás enganando Salomão! O saber a respeito do Filho de Deus e o anseio de poder servir a Ele continuam vivendo nas almas, mesmo depois da morte! E esse saber e o anseio despertarão nos novos corpos terrenos, quando nascerem de novo na Terra, provavelmente na época do Enviado de Deus. Imediatamente o reconhecerão e ficarão agradecidos por lhes ser permitido servir a Ele."
Esse encontro em Jerusalém teria ocorrido em 950 a.Cestá registrado na Bíblia .
(primeiro livro dos Reis (Cap. 10, vers 1-13) e segundo das Crônicas (Cap. 9, vers 1-12)).
No Kebra Nagast, conta-se que o Rei Davi, o primeiro governante judeu do chamado Período dos Reis da história dos judeus, desposou Betsabá, uma descendente de judeus negros. O casal gerou o histórico Salomão, que sucedeu o pai e gerou um filho com a Rainha Sheba (a Rainha de Sabá), imperatriz de terras ao sul da Etiópia. Como legado ao herdeiro, Salomão confiou à Rainha um anel de diamante ornamentado com afigura do Leão de Judah.O garoto recebeu o nome de Menelik, Bayna-Lehkem ou, o "Filho do Sábio", e consta que teria visitado as terras de Israel onde conheceu seu pai e com ele foi iniciado no judaísmo. A ele o pai teria confiado a Arca da Aliança contendo os dez mandamentos dados por Moisés.
Foi assim que o Reino de Davi se estabeleceu na Etiópia há três mil anos e a Dinastia, bem como o anel de diamante, atravessaram os séculos até se extinguir com a morte de Haile Selassie. O império abissínio para o qual se aplicava o termo Etiópia se considera descendente do Rei Menelik, filho que Belkis com Salomão. Além dos títulos de rei dos Reis (Negus Nagast) e Senhor dos Senhores, o trono etíope agregava outros tantos atributos que reforçavam a autoridade religiosa do imperador; ele era o Leão de Judah, o Eleito de Deus, o Messias Negro.Essa dinastia reinou na Etiópia até 1974. Ainda neste século o governo do Iêmen não permitia pesquisas arqueológicas na região, não sendo admitida à entrada de estrangeiros no país, embora as ruínas de Marib, antiga capital de Sabá, se estendessem por quilômetros. Finalmente, através dos esforços do paleólogo Wendell Philips, foi dado ao mundo cientificar-se da real existência de Sabá e do esplendor de Marib, sua capital.á cerca de 3.000 anos, a Rainha de Sabá estava indecisa
A Rainha de Sabá da antiguidade até os dias atuais sido tema da pesquisa científica que tenta comprovar sua existência.Sua figura tem alimentado a imaginação de pintores, cineastas, historiadores .É retratada em 1512 nas Pinturas de Lambert Sustris, “A Chegada da Rainha de Sabá ,e por Edward Poynter artista do no século 19”.Foi tema de filmes como Salomão e a Rainha de Sabá, dirigido em 1959 por King Vidor, e As Mil e Uma Noites, de Pier Paolo Pasolini, filmado em 1973.

Material recebido por e-mail da Casa Mulher Negra de Santos – Alzira como sempre, bem informada e informando a todos.

segunda-feira, junho 12, 2006

ORORO OU IANSÁ


Assisti o filme X Men III e depois tive a feliz impressão que a personagem Tempestade pode ter sido criada com base na deusa negra Iansã.
As duas tem poderes quase semelhantes e são africanas. Será que Stan Lee adodou pesquisando sobre Candomblé antes de criá-la?
Mas assistam o filme Halle Barry está linda e com mais fala no filme. Pena para quem leu os HQs perceba algumas falhas incomodas na trama.

sexta-feira, junho 09, 2006

O CAPITULO UM DO HIP HOP


A frase acima é tira do filme Brown Sugar e eu também assumo como minha. Um do estilo de musical, vida e militância. Tal marginal e perseguido como foi o samba no passado, hoje é o Hip Hop em seus quatro elementos: grafite, break, MC e Dj. Mas muitas pessoas perguntam: de onde veio o Hip Hop? Darei algumas pistas a seguir desta batida universal.
Um dos pilares do Hip Hop está no break, que é filho da dança de rua, praticada ao som do funk dos anos 60, e que teve como um de seus maiores expoentes James Brown.
O Rap - rhythm and poetry, ou seja, ritmo e poesia, nasceu nas periferias de Nova Iorque, nos bairros Bronx e Harlem quando os negros norte-americanos, na falta de recursos para grandes instrumentos musicais, passaram ao som de fitas cassetes de funk, disponibilizar seus grandes toca-fitas nas esquinas para em grupo cantar e dançar. Os avôs deste estilo são os “Last Poets” , que eram um grupo de jovens afro-americanos militantes que manifestaram sua indignação social em rimas e percussões, e assim passavam suas propostas.
Alguns foram além e com tocas discos começaram a misturar e criar novas batidas, e assim nascia o DJ. Considerados pioneiros desta arte são Kool D.J. Dee e Kool Herc que logo formou muitos DJs. E o mais notórios desses jovens talentos foi Disco King Mario, que mais tarde passou a ser conhecido como Afrika Bambaataa.
Também foi Kool Herc , jamaiacano lançou o MC – Mestre de Cerimônia ao convidar Coke La Rock para agitar suas apresentações com frases como Ya rock and ya don’t stop!, Rock on my mellow! e To the beat y’all, que hoje podem ser ouvida como clássico em vários samples de rap

Afrika Bambaataa

Afrika desenvolveu um estilo próprio de DJ, iniciando suas apresentações ao som de um trovão e denominando os garotos de Zulu Nation, traduzindo, Nação Zulu, dando pistas de sua consciência negra, ao homenagear uma das etnias africanas mais guerreiras. No dia 12 de novembro de 1973 a Zulu Nation, virou uma ONG ou posse como denominamos na periferia, com o objetivo de ajudar a juventude negra. O lema era: “Paz, União e Diversão”.
Também é creditada a Bambaataa a criação do termo Hip Hop em 1968 afirmava ter se pensado na hora nos dois movimentos corporais que o pessoal fazia quando dançava, ou seja, Hip Hop
Outro grande Dj que surgiu foi Grand Master Flash, que inventou uma sonoridade para que os primeiros rappers pudessem rimar e os b.boys pudessem dançar. Foi ele que lançou o scratch e depois deles, vários scratchings são hoje copiados exaustivamente.

SOUND SYSTEMS – PAI DO RAP
Mas a poesia ritmada de Mano Brown- Racionais Mc não existiria, sem a criatividade dos jamaicanos. Para quem já escutou reggae percebe o improviso de versos. Isso já existia nos anos 60 e era chamado de – sound systems, onde ao ritmo da musica o mestre de cerimônia ia rimando e versando sobre a situação socioeconômica da sociedade local.
Com a imigração de jamaicanos para os Estados Unidos, e sua convivência nos bairros de periferias com afro-americanos, isso influenciou a musica de rua. Um desses imigrantes era justamente
Em 1978 foi gravado o primeiro disco de Hip Hop, do grupo FatBack, com a musica King Tim, em 1978. Nossa, eu só tinha 8 anos de idade. Outro clássico é “Rapper’s Delight”, que é sampleada no maior sucesso de 1979 Good Times e para alguns é o gênese do Rap.

1983 – SURGE O HIP HOP BRASILEIRO
Denominado de break, o Hip Hop brasileiro surgiu na esteira do mito Michael Jackson, que inspirou muitos grupos de dança de rua em São Paulo. Até programas de televisão abriam espaço para a expressão desta arte como na TV Record com Barros de Alencar onde se apresentaram os grandes Poppers como Os Cobras e as Buffalo Girls e a grande final entre Os Dragon’s Breaker’s versus Gang de Rua. Também são desta época os grupos: Back Spin, Jabaquaras Breakers, Red Crazy Crew, Street Warrior’s e Nação Zulu.
O primeiro grupo de dança de rua foi o Electric Boogies. Depois muitos grupos surgiram e se apresentaram nas proximidades da estação de metrô, São Bento. Entre eles um b.boys que viria se tornar um dos maiores MC brasileiro, Thaide , que com seu DJ Humberto, hoje Hum foram os criadores de uma escola de estilo de hip hop.
Não podemos deixar de lembrar de MC Mattar, Marcelo Cirino, hoje fora da cena mas também um dos fundadores do hip hop nacional. Ele teve inclusive um grupo de dança de rua chamado Gang de Rua, composto por Jorge Paixão, Tijolo e Daniel Paixão, o hoje conhecido Criminal D.
Em 1986, acontece um dos primeiros shows de rap. Foi no Teatro Mambembe, e foi roganziado pelo DJ Theo Werneck.
A primeira musica de rap gravada foi do grupo Black Junior – Mas que linda esta? E quem se recorda de Fabio Macari, DJ Cuca e os Dinamic Duo? A primeira coletânea saiu em 1988. "Hip-Hop Cultura de Rua” lançada pela gravadora Eldorado, onde participaram Thaide & DJ Hum, MC/DJ Jack, Código 13 e outros grupos.
Outra pessoa importantíssima para o Hip Hop foi Milton Salles, que em 1989 criou o Movimento Hip Hop Organizado – MH2O, que também foi um dos primeiros produtores do grupo Racionais Mc. Uma das iniciativas que dão dignificam Salles foi seu trabalho na divulgação do Hip Hop e a realização de inúmeras oficinas nas periferias, ensinado os 4 elementos.
Hoje o Rap Nacional é forte e único no mundo, desde a batida tradicional do Racionais MCs ao som suingado de Marcelo D2 que uniu samba e hip hop e deu uma nova vida ao estilo.
Mesmo assim o estilo musical e de vida segue marginal, como era o samba, poucas rádios e emissoras de TV divulgando e os eventos são sempre mal vistos pelas autoridades policiais e políticas, exceto, raras exceções.
Há ainda o temor que semelhante ao samba o Rap seja assimilado no Brasil, assim como foi nos Estados Unidos, pela elite, como forma de divertimento simplesmente, sem sua função principal, alertar a população da periferia sobre as formas de dominação e dar auto-estima e conselhos de organização e união.
O rap é compromisso.

quarta-feira, junho 07, 2006

Pai Contra Mãe, de Machado de Assis

A ESCRAVIDÃO levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-deflandres.
A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber. perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí
ficavam dous pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.
O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa também à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado.
Há meio século, os escravos fugiam com freqüência. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada. Grande parte era apenas repreendida; havia alguém de
casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da
propriedade moderava a ação, porque dinheiro também dói. A fuga repetia-se, entretanto. Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de contrabando, apenas comprado no Valongo, deitava a correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam para casa, não raro, apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcasse aluguel, e iam ganhá-lo fora, quitandando.
Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lho levasse. Punha anúncios nas folhas públicas, com os sinais do fugido, o nome, a roupa, o defeito físico, se o tinha, o bairro por onde andava e a quantia de gratificação. Quando não vinha a quantia, vinha promessa: "gratificar-se-á generosamente", -- ou "receberá uma boa gratificação". Muita vez o anúncio trazia em cima ou ao lado uma vinheta, figura de preto, descalço, correndo, vara ao ombro, e na ponta uma trouxa. Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem o acoutasse.
Ora, pegar escravos fugidios era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas por ser instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implícita das ações reivindicadoras. Ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir também, ainda que por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem.
Cândido Neves, -- em família, Candinho,-- é a pessoa a quem se liga a história de uma fuga, cedeu à pobreza, quando adquiriu o ofício de pegar escravos fugidos. Tinha um defeito grave esse homem, não agüentava emprego nem ofício, carecia de estabilidade; é o que ele chamava caiporismo. Começou por querer aprender tipografia, mas viu cedo que era preciso algum tempo para compor bem, e ainda assim talvez não ganhasse o
bastante; foi o que ele disse a si mesmo. O comércio chamou-lhe a atenção, era carreira boa. Com algum esforço entrou de caixeiro para um armarinho. A obrigação, porém, de atender e servir a todos feria-o na corda do orgulho, e ao cabo de cinco ou seis semanas estava na rua por sua vontade. Fiel de cartório, contínuo de uma repartição anexa ao Ministério do Império, carteiro e outros empregos foram deixados ouco depois de obtidos.
Quando veio a paixão da moça Clara, não tinha ele mais que dívidas, ainda que poucas, porque morava com um primo, entalhador de ofício. Depois de várias tentativas para obter emprego, resolveu adotar o ofício do primo, de que aliás já tomara algumas lições.
Não lhe custou apanhar outras, mas, querendo aprender depressa, aprendeu mal. Não fazia obras finas nem complicadas, apenas garras para sofás e relevos comuns para cadeiras. Queria ter em que trabalhar quando casasse, e o casamento não se demorou muito.
Contava trinta anos. Clara vinte e dous. Ela era órfã, morava com uma tia, Mônica, e cosia com ela. Não cosia tanto que não namorasse o seu pouco, mas os namorados apenas queriam matar o tempo; não tinham outro empenho. Passavam às tardes, olhavam muito para ela, ela para eles, até que a noite a fazia recolher para a costura. O que ela notava é que nenhum deles lhe deixava saudades nem lhe acendia desejos.
Talvez nem soubesse o nome de muitos. Queria casar, naturalmente. Era, como lhe dizia
a tia, um pescar de caniço, a ver se o peixe pegava, mas o peixe passava de longe; algum que parasse, era só para andar à roda da isca, mirá-la, cheirá-la, deixá-la e ir a outras.
O amor traz sobrescritos. Quando a moça viu Cândido Neves, sentiu que era este o possível marido, o marido verdadeiro e único. O encontro deu-se em um baile; tal foi-- para lembrar o primeiro ofício do namorado, -- tal foi a página inicial daquele livro, que tinha de sair mal composto e pior brochado. O casamento fez-se onze meses depois, e foi a mais bela festa das relações dos noivos. Amigas de Clara, menos por amizade que por inveja, tentaram arredá-la do passo que ia dar. Não negavam a gentileza do noivo,nem o amor que lhe tinha, nem ainda algumas virtudes; diziam que era dado em demasia a patuscadas.
--Pois ainda bem, replicava a noiva; ao menos, não caso com defunto. --Não, defunto não; mas é que... Não diziam o que era. Tia Mônica, depois do casamento, na casa pobre onde eles se foram abrigar, falou-lhes uma vez nos filhos possíveis. Eles queriam um, um só, embora viesse agravar a necessidade.
--Vocês, se tiverem um filho, morrem de fome, disse a tia à sobrinha.
--Nossa Senhora nos dará de comer, acudiu Clara. Tia Mônica devia ter-lhes feito a advertência, ou ameaça, quando ele lhe foi pedir a mão da moça; mas também ela era amiga de patuscadas, e o casamento seria uma festa, como foi. A alegria era comum aos três. O casal ria a propósito de tudo. Os mesmos nomes eram
objeto de trocados, Clara, Neves, Cândido; não davam que comer, mas davam que rir, e o riso digeria-se sem esforço.
Ela cosia agora mais, ele saía a empreitadas de uma cousa e outra; não tinha emprego certo. Nem por isso abriam mão do filho. O filho é que, não sabendo daquele desejo específico, deixava-se estar escondido na eternidade. Um dia. porém, deu sinal de si a criança; varão ou fêmea, era o fruto abençoado que viria trazer ao casal a suspirada ventura. Tia Mônica ficou desorientada, Cândido e Clara riram dos seus sustos. --Deus nos há de ajudar, titia, insistia a futura mãe.
A notícia correu de vizinha a vizinha. Não houve mais que espreitar a aurora do dia grande. A esposa trabalhava agora com mais vontade, e assim era preciso, uma vez que, além das costuras pagas, tinha de ir fazendo com retalhos o enxoval da criança. À força de pensar nela, vivia já com ela, media-lhe fraldas, cosia-lhe camisas. A porção era escassa, os intervalos longos. Tia Mônica ajudava, é certo, ainda que de má vontade.
--Vocês verão a triste vida, suspirava ela. --Mas as outras crianças não nascem também?
perguntou Clara. --Nascem, e acham sempre alguma cousa certa que comer, ainda que pouco... --Certa como? --Certa, um emprego, um ofício, uma ocupação, mas em que é que o pai dessa infeliz criatura que aí vem gasta o tempo?
Cândido Neves, logo que soube daquela advertência, foi ter com a tia, não áspero mas muito menos manso que de costume, e lhe perguntou se já algum dia deixara de comer.
--A senhora ainda não jejuou senão pela semana santa, e isso mesmo quando não quer jantar comigo. Nunca deixamos de ter o nosso bacalhau... --Bem sei, mas somos três. -- Seremos quatro. --Não é a mesma cousa. -- Que quer então que eu faça, além do que faço? -- Alguma cousa mais certa. Veja o marceneiro da esquina, o homem do armarinho, o tipógrafo que casou sábado, todos têm um emprego certo... Não fique zangado; não digo que você seja vadio, mas a ocupação que escolheu é vaga. Você passa semanas sem vintém. -- Sim, mas lá vem uma noite que compensa tudo, até de sobra. Deus não me abandona, e preto fugido sabe que comigo não brinca; quase nenhum resiste, muitos entregam-se logo.
Tinha glória nisto, falava da esperança como de capital seguro. Daí a pouco ria, e fazia rir à tia, que era naturalmente alegre, e previa uma patuscada no batizado.
Cândido Neves perdera já o ofício de entalhador, como abrira mão de outros muitos, melhores ou piores. Pegar escravos fugidos trouxe-lhe um encanto novo. Não obrigava a estar longas horas sentado. Só exigia força, olho vivo, paciência, coragem e um pedaço de corda. Cândido Neves lia os anúncios, copiava-os, metia-os no bolso e saía às pesquisas. Tinha boa memória. Fixados os sinais e os costumes de um escravo fugido,gastava pouco tempo em achá-lo, segurá-lo, amarrá-lo e levá-lo. A força era muita, a agilidade também. Mais de uma vez, a uma esquina, conversando de cousas remotas,via passar um escravo como os outros, e descobria logo que ia fugido, quem era, o nome, o dono, a casa deste e a gratificação; interrompia a conversa e ia atrás do vicioso.
Não o apanhava logo, espreitava lugar azado, e de um salto tinha a gratificação nas mãos. Nem sempre saía sem sangue, as unhas e os dentes do outro trabalhavam, mas geralmente ele os vencia sem o menor arranhão.
Um dia os lucros entraram a escassear. Os escravos fugidos não vinham já, como dantes, meter-se nas mãos de Cândido Neves. Havia mãos novas e hábeis. Como o negócio crescesse, mais de um desempregado pegou em si e numa corda, foi aos jornais, copiou anúncios e deitou-se à caçada. No próprio bairro havia mais de um competidor.
Quer dizer que as dívidas de Cândido Neves começaram de subir, sem aqueles pagamentos prontos ou quase prontos dos primeiros tempos. A vida fez-se difícil e zura.
Comia-se fiado e mal; comia-se tarde. O senhorio mandava pelo aluguéis.
Clara não tinha sequer tempo de remendar a roupa ao marido, tanta era a necessidade de coser para fora. Tia Mônica ajudava a sobrinha, naturalmente. Quando ele chegava à tarde, via-se-lhe pela cara que não trazia vintém. Jantava e saía outra vez, à cata de algum fugido. Já lhe sucedia, ainda que raro, enganar-se de pessoa, e pegar em escravo fiel que ia a serviço de seu senhor; tal era a cegueira da necessidade. Certa vez capturou um preto livre; desfez-se em desculpas, mas recebeu grande soma de murros que lhe deram os parentes do homem.
--É o que lhe faltava! exclamou a tia Mônica, ao vê-lo entrar, e depois de ouvir narrar o equívoco e suas conseqüências. Deixe-se disso, Candinho; procure outra vida, outro emprego.
Cândido quisera efetivamente fazer outra cousa, não pela razão do conselho, mas por simples gosto de trocar de ofício; seria um modo de mudar de pele ou de pessoa. O pior é que não achava à mão negócio que aprendesse depressa.
A natureza ia andando, o feto crescia, até fazer-se pesado à mãe, antes de nascer.
Chegou o oitavo mês, mês de angústias e necessidades, menos ainda que o nono, cuja narração dispenso também. Melhor é dizer somente os seus efeitos. Não podiam ser mais amargos.
--Não, tia Mônica! bradou Candinho, recusando um conselho que me custa escrever, quanto mais ao pai ouvi-lo. Isso nunca!
Foi na última semana do derradeiro mês que a tia Mônica deu ao casal o conselho de levar a criança que nascesse à Roda dos enjeitados. Em verdade, não podia haver palavra mais dura de tolerar a dous jovens pais que espreitavam a criança, para beijá-la, guardá-la, vê-la rir, crescer, engordar, pular... Enjeitar quê? enjeitar como? Candinho arregalou os olhos para a tia, e acabou dando um murro na mesa de jantar. A mesa, que era velha e desconjuntada, esteve quase a se desfazer inteiramente. Clara interveio. -- Titia não fala por mal, Candinho. --Por mal? replicou tia Mônica. Por mal ou por bem, seja o que for, digo que é o melhor que vocês podem fazer. Vocês devem tudo; a carne e o feijão vão faltando. Se não aparecer algum dinheiro, como é que a família há de aumentar? E depois, há tempo; mais tarde, quando o senhor tiver a vida mais segura, os filhos que vierem serão recebidos com o mesmo cuidado que este ou maior. Este será bem criado, sem lhe faltar nada. Pois então a Roda é alguma praia ou monturo? Lá não se mata ninguém, ninguém morre à toa, enquanto que aqui é certo morrer, se viver à míngua. Enfim... Tia Mônica terminou a frase com um gesto de ombros, deu as costas e foi meter-se na alcova. Tinha já insinuado aquela solução, mas era a primeira vez que o fazia com tal franqueza e calor,-- crueldade, se preferes. Clara estendeu a mão ao marido, como a amparar-lhe o ânimo; Cândido Neves fez uma careta, e chamou maluca à tia, em voz baixa. A ternura dos dous foi interrompida por alguém que batia à porta da rua.
--Quem é? perguntou o marido. --Sou eu.
Era o dono da casa, credor de três meses de aluguel, que vinha em pessoa ameaçar o inquilino. Este quis que ele entrasse.
--Não é preciso... --Faça favor.
O credor entrou e recusou sentar-se, deitou os olhos à mobília para ver se daria algo à penhora; achou que pouco. Vinha receber os aluguéis vencidos, não podia esperar mais;se dentro de cinco dias não fosse pago, pô-lo-ia na rua. Não havia trabalhado para regalo dos outros. Ao vê-lo, ninguém diria que era proprietário; mas a palavra supria o que faltava ao gesto, e o pobre Cândido Neves preferiu calar a retorquir. Fez uma inclinação de promessa e súplica ao mesmo tempo. O dono da casa não cedeu mais.
--Cinco dias ou rua! repetiu, metendo a mão no ferrolho da porta e saindo.
Candinho saiu por outro lado. Nesses lances não chegava nunca ao desespero, contava com algum empréstimo, não sabia como nem onde, mas contava. Demais, recorreu aos anúncios. Achou vários, alguns já velhos, mas em vão os buscava desde muito. Gastou algumas horas sem proveito, e tornou para casa. Ao fim de quatro dias, não achou recursos; lançou mão de empenhos, foi a pessoas amigas do proprietário, não
alcançando mais que a ordem de mudança.
A situação era aguda. Não achavam casa, nem contavam com pessoa que lhes emprestasse alguma; era ir para a rua. Não contavam com a tia. Tia Mônica teve arte de alcançar aposento para os três em casa de uma senhora velha e rica, que lhe prometeu emprestar os quartos baixos da casa, ao fundo da cocheira, para os lados de um pátio.
Teve ainda a arte maior de não dizer nada aos dous, para que Cândido Neves, no desespero da crise começasse por enjeitar o filho e acabasse alcançando algum meio seguro e regular de obter dinheiro; emendar a vida, em suma. Ouvia as queixas de Clara,sem as repetir, é certo, mas sem as consolar. No dia em que fossem obrigados a deixar a casa, fá-los-ia espantar com a notícia do obséquio e iriam dormir melhor do que cuidassem.
Assim sucedeu. Postos fora da casa, passaram ao aposento de favor, e dous dias depois nasceu a criança. A alegria do pai foi enorme, e a tristeza também. Tia Mônica insistiu em dar a criança à Roda. "Se você não a quer levar, deixe isso comigo; eu vou à Rua dos Barbonos." Cândido Neves pediu que não, que esperasse, que ele mesmo a levaria.
Notai que era um menino, e que ambos os pais desejavam justamente este sexo. Mal lhe deram algum leite; mas, como chovesse à noite, assentou o pai levá-lo à Roda na noite seguinte.
Naquela reviu todas as suas notas de escravos fugidos . As gratificações pela maior parte eram promessas; algumas traziam a soma escrita e escassa. Uma, porém, subia a cem mil-réis. Tratava-se de uma mulata; vinham indicações de gesto e de vestido.
Cândido Neves andara a pesquisá-la sem melhor fortuna, e abrira mão do negócio; imaginou que algum amante da escrava a houvesse recolhido. Agora, porém, a vista
nova da quantia e a necessidade dela animaram Cândido Neves a fazer um grande esforço derradeiro. Saiu de manhã a ver e indagar pela Rua e Largo da Carioca, Rua do Parto e da Ajuda, onde ela parecia andar, segundo o anúncio. Não a achou; apenas um farmacêutico da Rua da Ajuda se lembrava de ter vendido uma onça de qualquer droga, três dias antes, à pessoa que tinha os sinais indicados. Cândido Neves parecia falar como dono da escrava, e agradeceu cortesmente a notícia. Não foi mais feliz com outros fugidos de gratificação incerta ou barata.
Voltou para a triste casa que lhe haviam emprestado. Tia Mônica arranjara de si mesma a dieta para a recente mãe, e tinha já o menino para ser levado à Roda. O pai, não obstante o acordo feito, mal pôde esconder a dor do espetáculo. Não quis comer o que tia Mônica lhe guardara; não tinha fome, disse, e era verdade. Cogitou mil modos de ficar com o filho; nenhum prestava. Não podia esquecer o próprio albergue em que vivia. Consultou a mulher, que se mostrou resignada. Tia Mônica pintara-lhe a criação do menino; seria maior a miséria, podendo suceder que o filho achasse a morte sem recurso. Cândido Neves foi obrigado a cumprir a promessa; pediu à mulher que desse ao filho o resto do leite que ele beberia da mãe. Assim se fez; o pequeno adormeceu, o pai pegou dele, e saiu na direção da Rua dos Barbonos.
Que pensasse mais de uma vez em voltar para casa com ele, é certo; não menos certo é que o agasalhava muito, que o beijava, que cobria o rosto para preservá-lo do sereno.
Ao entrar na Rua da Guarda Velha, Cândido Neves começou a afrouxar o passo. --Hei de entregá-lo o mais tarde que puder, murmurou ele. Mas não sendo a rua infinita ou sequer longa, viria a acabá-la; foi então que lhe ocorreu entrar por um dos becos que ligavam aquela à Rua da Ajuda. Chegou ao fim do beco e, indo a dobrar à direita, na direção do Largo da Ajuda, viu do lado oposto um vulto de mulher; era a mulata fugida.
Não dou aqui a comoção de Cândido Neves por não podê-lo fazer com a intensidade real. Um adjetivo basta; digamos enorme. Descendo a mulher, desceu ele também; a poucos passos estava a farmácia onde obtivera a informação, que referi acima. Entrou, achou o farmacêutico, pediu-lhe a fineza de guardar a criança por um instante; viria buscá-la sem falta.
--Mas... Cândido Neves não lhe deu tempo de dizer nada; saiu rápido, atravessou a rua, até ao ponto em que pudesse pegar a mulher sem dar alarma. No extremo da rua, quando ela ia a descer a de S. José, Cândido Neves aproximou-se dela. Era a mesma, era a mulata fujona. --Arminda! bradou, conforme a nomeava o anúncio.
Arminda voltou-se sem cuidar malícia. Foi só quando ele, tendo tirado o pedaço de corda da algibeira, pegou dos braços da escrava, que ela compreendeu e quis fugir. Era já impossível. Cândido Neves, com as mãos robustas, atava-lhe os pulsos e dizia que andasse. A escrava quis gritar, parece que chegou a soltar alguma voz mais alta que de costume, mas entendeu logo que ninguém viria libertá-la, ao contrário. Pediu então que a soltasse pelo amor de Deus.
--Estou grávida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe por amor dele que me solte; eu serei tua escrava, vou servi-lo pelo tempo que quiser. Me solte, meu senhor moço! -- Siga! repetiu Cândido Neves. --Me solte! --Não quero demoras; siga!
Houve aqui luta, porque a escrava, gemendo, arrastava-se a si e ao filho. Quem passava ou estava à porta de uma loja, compreendia o que era e naturalmente não acudia.
Arminda ia alegando que o senhor era muito mau, e provavelmente a castigaria com açoutes,--cousa que, no estado em que ela estava, seria pior de sentir. Com certeza, ele lhe mandaria dar açoutes.
--Você é que tem culpa. Quem lhe manda fazer filhos e fugir depois? perguntou Cândido Neves.
Não estava em maré de riso, por causa do filho que lá ficara na farmácia, à espera dele.
Também é certo que não costumava dizer grandes cousas. Foi arrastando a escrava pela Rua dos Ourives, em direção à da Alfândega, onde residia o senhor. Na esquina desta a luta cresceu; a escrava pôs os pés à parede, recuou com grande esforço, inutilmente. O que alcançou foi, apesar de ser a casa próxima, gastar mais tempo em lá chegar do que devera. Chegou, enfim, arrastada, desesperada, arquejando. Ainda ali ajoelhou-se, mas em vão. O senhor estava em casa, acudiu ao chamado e ao rumor.
--Aqui está a fujona, disse Cândido Neves. -- É ela mesma. --Meu senhor! --Anda, entra... Arminda caiu no corredor. Ali mesmo o senhor da escrava abriu a carteira e tirou os cem mil-réis de gratificação. Cândido Neves guardou as duas notas de cinqüenta milréis,enquanto o senhor novamente dizia à escrava que entrasse. No chão, onde jazia, levada do medo e da dor, e após algum tempo de luta a escrava abortou.
O fruto de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os gemidos da mãe e os gestos de desespero do dono. Cândido Neves viu todo esse espetáculo. Não sabia que horas eram. Quaisquer que fossem, urgia correr à Rua da Ajuda, e foi o que ele fez sem querer conhecer as conseqüências do desastre.
Quando lá chegou, viu o farmacêutico sozinho, sem o filho que lhe entregara. Quis esganá-lo. Felizmente, o farmacêutico explicou tudo a tempo; o menino estava lá dentro com a família, e ambos entraram. O pai recebeu o filho com a mesma fúria com que pegara a escrava fujona de há pouco, fúria diversa, naturalmente, fúria de amor.
Agradeceu depressa e mal, e saiu às carreiras, não para a Roda dos enjeitados, mas para a casa de empréstimo com o filho e os cem mil-réis de gratificação. Tia Mônica, ouvida a explicação, perdoou a volta do pequeno, uma vez que trazia os cem mil-réis. Disse, é verdade, algumas palavras duras contra a escrava, por causa do aborto, além da fuga.
Cândido Neves, beijando o filho, entre lágrimas, verdadeiras, abençoava a fuga e não se lhe dava do aborto.
--Nem todas as crianças vingam, bateu-lhe o coração.
Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.

quarta-feira, maio 24, 2006

Frei David, liderança do Movimento Negro Brasileiro


Ele pode não admitir, devido a sua formação religiosa e sua naturalidade mineira, mas o frei franciscano David Raimundo dos Santos, presidente da Rede de Cursinhos Populares Educafro, é o novo líder do Movimento Negro no Brasil. Com sua determinação e habilidade política tem conseguido fazer o enfrentamento social para conseguir a aprovação de ações afirmativas nos setores público e privado.
O Frei David nasceu no dia 17 de outubro de 1952, na cidade mineira de Nanuque, filho de Manuel Rosalino dos Santos Maria Pereira Gomes, mas passou parte de sua infância e juventude no estado do Espírito Santo. Depois, seguido para o estado do Rio de Janeiro, onde em Petrópolis, fez sua formação religiosa sacerdotal cursando Teologia e Filosofia.
Desde o Seminário Franciscano de Petrópolis, Frei David sofreu a influência da Teologia da Libertação, que pregava que a Igreja Católica deveria estar mais próxima dos setores da população pobre, e foi o que ele fez por mais de 16 anos, mas também teve a conscientização de que a maioria dos excluídos é negra. E isso despertou mais ainda sua militância negra, organizando na Baixada Fluminense a formação de agentes da Pastoral do Negro. Também foi eleito, tempos depois, membro da Secretaria Executiva Latino-Americana da Pastoral Afro-Latina Americana e Caribenha.
No Brasil, ele ajudou em no desenvolvimento da Teologia Negra, onde a fé cristã é discutida sob uma ótica africana e respeitando a diversidade religiosa dos afro-brasileiros. Ele lançou pela Editora Vozes o Calendário Beleza Negra e as Coleções Negras em Libertação.
No inicio dos anos 90, Frei David, descobriu que juntamente com agentes pastorais que havia uma razão para o empobrecimento da população negra, a dificuldade na formação escolar. Por isso, foi criada o Educafro – Cursinho Pré-Vestibular destinado a negros e carentes.
Nos debates no Senado Federal e na Câmara dos Deputados ele participou ativamente, juntamente com integrantes do Educafro para aprovação das cotas. Se a proposta for aprovada este ano, será devidas a grande pressão popular e política que ele realiza. Junto aos bancos e lojas de São Paulo, ele realizou manifestações que conseguiram sensibilizar banqueiros e comerciantes na contratação de mais trabalhadores negros.
Em um período onde há muitas pessoas se auto proclamam líderes do Movimento Negro, chegando ao erro estratégico de dividir uma grande manifestação em prol das ações afirmativas, o religioso franciscano parece um das poucas cabeças negras a ter a lucidez de um Martin Luther King Junior e a radicalidade de um Malcolm X, com aceitação em qualquer ala política. Principalmente, por que não é candidato a nenhum cargo eletivo.
É bom citar que há um número considerável de lideres jovens, oriundos do Educafro, que tem ajuda a renovar a militância do Movimento Negro e tornando-se o diferencial entre outros militantes, pois acreditam fielmente na falta de ambição do Frei David, que assim como o mártir Padre Josímo, dá a vida pelo o que luta.

terça-feira, maio 09, 2006

A polêmica Carta da Princesa Isabel



Acho oportuno oferecer a todos a polêmica carta da Princesa Isabel ao Visconde de Santa Rita, onde pede Reforma Agrária para as pessoas negras recém libertas:

11 de agosto de 1889 - Paço Isabel
Corte midi
Caro Senhor Visconde de Santa Victória
Fui informada por papai que me colocou a par da intenção e do envio dos fundos de seu Banco em forma de doação como indenização aos ex-escravos libertos em 13 de Maio do ano passado, e o sigilo que o Senhor pediu ao presidente do gabinete para não provocar maior reação violenta dos escravocratas. Deus nos proteja dos escravocratas e os militares saibam deste nosso negócio, pois seria o fim do atual governo e mesmo do Império e da Casa de Bragança no Brasil. Nosso amigo Nabuco, além dos Srs. Rebouças, Patrocínio e Dantas, poderem dar auxílio a partir do dia 20 de Novembro quando as Câmaras se reunirem para a posse da nova Legislatura. Com o apoio dos novos deputados e os amigos fiéis de papai no Senado será possível realizar as mudanças que sonho para o Brasil!
Com os fundos doados pelo Senhor teremos oportunidade de colocar estes ex-escravos, agora livres, em terras suas próprias trabalhando na agricultura e na pecuária e delas tirando seus próprios proventos. Fiquei mais sentida ao saber por papai que esta doação significou mais de 2/3 da venda dos seus bens, o que demonstra o amor devotado do Senhor pelo Brasil. Deus proteja o Senhor e todo a sua família para sempre!
Foi comovente a queda do Banco Mauá em 1878 e a forma honrada e proba, porém infeliz, que o Senhor e seu estimado sócio, o grande Visconde de Mauá aceitaram a derrocada, segundo papai tecida pelos ingleses de forma desonesta e corrupta. A queda do Sr. Mauá significou uma grande derrota para o nosso Brasil!
Mas não fiquemos mais no passado, pois o futuro nos será promissor, se os republicanos e escravocratas nos permitirem sonhar mais um pouco. Pois as mudanças que tenho em mente como o senhor já sabe, vão além da liberação dos cativos. Quero agora me dedicar a libertar as mulheres dos grilhões do cativeiro domestico, e isto será possível através do Sufrágio Feminino! Si a mulher pode reinar também pode votar!
Agradeço vossa ajuda de todo meu coração e que Deus o abençoe!
Mando minhas saudações a Madame la Vicomtesse de Santa Vitória e toda a família.
Muito de coração
ISABEL

Mas afirmo que em História, nada pode ser lido isoladamente. É preciso estudar mais profundamente o período em que foi escrito. Qual o clima entre monarquista, republicanos e escravocratas?
E uma dúvida bem oportuna: o Visconde tinha reservado um bom dinheiro para ajudar os ex-escravos. Para onde foi esta grana? Sumiu entre a derrubada da Monarquia e Proclamação da República?

quarta-feira, abril 05, 2006

Chega de Sinhá Moça!



No dia 13 de março, estreou na Rede Globo, a novela Sinhá Moça, uma reedição do sucesso de 1986. A história toda é baseada no livro de Maria Dezonne Pacheco Fernandes, e é uma espécie de Romeu e Julieta abolicionista. Débora Falabella será a Sinhá, que amamentada por uma negra escravizada - Bá, desenvolve um sentimento de piedade pelo povo negro e isso a atrairá ao jovem Rodolfo, um abolicionista, vivido por Danton Mello.Sinhá Moça já foi antes encenada nas telas em 1953, através da Companhia de Cinema Vera Cruz, com os Eliane Lage e Anselmo Duarte nos papeis principais.
A novela é um desproposito, nesse período em que estamos lutando nas salas de aula, para mudar a forma como o negro é retratado na História. Já há centenas de livros provando que ninguém ficou senzala sofrendo, esperando a sorte de nascer uma Sinhá Moça para nos libertar. O processo foi protagonizado pelo afro brasileiro de duas formas: Revolucionário - criando quilombo, semelhante ao de Palmares; e Abolicionista como Luis Gama, José do Patrocínio, André Rebouças e muitos outros.
Tudo é execrável na novela. A palavra “Sinhá” vem de sinhazinha, a filha do dono de escravos. Não é algo para se orgulhar. Depois, o fato dela ser amamentada pela ama de leite, não é algo singelo. As mulheres negras eram obrigadas a desmamar seus recém nascidos para dar leite à filha do senhor de escravo. Para exemplificar: no dia 1 de agosto de 1850, foi publicado o seguinte anuncio no Jornal do Comércio, no Rio de Janeiro: “Vende-se uma preta para ama-de-leite parida de sete dias com muito e bom leite”. Os bebes nem eram citados e em muitos casos, ficava a critério do comprador decidir seu destino.
E a exemplo do que aconteceu em 1986, a novela deve terminar na Abolição da Escravidão, com o povo na senzala dando “vivas” à Princesa Isabel, e por tabela ao casal protagonistas. Outro erro: Ela apenas sancionou uma lei já aprovada no Poder Legislativo, e em sua pior versão. Existiram propostas de indenização das pessoas escravizadas com terras, mas não foram aprovadas.
Sinhá Moça e Escrava Isaura são novelas que serviram no período da censura militar, para denunciar, através da ficção o sofrimento do povo brasileiro. Mas hoje, em plena democracia, os enredos estão ultrapassados e é necessária outra abordagem.
O remake só está servindo para em muitos casos, para baixar a auto-estima das crianças negras nas escolas, que não sabem dos heróis e heroínas que têm. Por que não contar a história de Zumbi ou da Rainha Nzinga e outras figuras negras?
Talvez o que o novelista Benedito Ruy Barbosa quer é que acreditemos que a escravidão nem tão foi ruim assim. Tínhamos a Débora Falabella e a Patrícia Pillar para nos defender. Que sorte a nossa!

O QUE É SAMBA ROCK?


A gente pra viver bem nesse mundo
tem que ser um pouco mais inteligente,
como já dizia a minha velha avó:
"Macaco velho não põe a mão na cumbuca!"
Com o meu avô eu aprendi
que não se cutuca onça com a vara curta!
Mas quando a minha mãe vinha me dizer
pra tomar cuidado com esse mundo louco
Eu não quis ouvir
Eu não quis ouvir

Só fui ouvir é de um tio malandro que eu tenho
quando ele me dizia:
"Com'é que é meu?!"

Segura a nega
Segura a nega, viu?
Segura nega!
Segura a nega, viu? Clube do Balanço - Segura a Nega

É difícil responder esta pergunta. Dá para descrever o que é uma batida de um tamborim? Mas tentarei falar o que é o samba-rock, ritmo que redescobri através do primeiro CD de um grupo paulista denominado Clube do Balanço. O nome "samba-rock foi dito pela primeira vez por Jackson do Pandeiro, na música Chiclete com Banana, de Gordurinha.
Os primórdios do samba-rock começa nos anos 50, numa atitude contra o apartheid racial que informalmente existia no país. Impedidos de entrar nos bailes com orquestras chiques ou pelo valor do ingresso ou simplesmente pelo segurança, o nosso povo começou a colocar o som através dos que chamaremos hoje dos pais dos DJs. A musica era executada através de uma seleção de discos ou mesmo fitas cassetes.
Neste clima o pessoal foi copiado o estilo de dançar twist norte-americano, num estilo que misturava também o swing do samba. Algo único e novo.

Ritmo
O inventor do samba-rock como música é Jorge Ben Jor, que nega até hoje. Há que teorize sobre o arranjador Sergio Mendes, que misturou samba, bossa nova e jazz. Erasmo Carlos também foi identificado no teste de DNA do ritmo.
Mas o grande Jorge Ben no disco “O Bidu” é realmente o pai do samba-rock. Depois uma geração de músico adaptou o samba, que era tradicionalmente tocado em compasso binário (2/4), ao compasso quaternário (4/4) do rock. Além de usar instrumentos elétricos, como guitarras.
Ainda no fim dos anos 60 outros exemplos de como o samba poderia caber na moldura rítmica do rock-soul: a Pilatragem de Carlos Imperial e Wilson Simonal (que fez de País Tropical, de Jorge Ben Jor, um de seus cavalos de batalha) e a farra orquestral do maestro Erlon Chaves (que concorreu em 1970, no V Festival Internacional da Canção, da Rede Globo, cantando Eu Quero Mocotó, também de Jorge, acompanhado por sua Banda Veneno).
Nos anos 70, a voz potente de Tim Maia popularizaria o samba-soul, emplacando dois sucessos nesse estilo: Réu Confesso e Gostava Tanto de Você. Jorge Ben Jor teve uma queda para o funk a partir do disco A Banda do Zé Pretinho (1978), mas artistas por ele diretamente influenciados seguiram a sua orientação anterior, com muito sucesso em bailes do subúrbio carioca. É o caso de Bebeto (O Negócio é Você Menina, Flamengo) e de Serginho Meriti.
Em São Paulo, os bailes de periferia também ferviam ao som do samba-rock-suíngue, de nomes como o Trio Mocotó (que originalmente acompanhava Jorge Ben Jor), Copa 7, Luiz Vagner (que foi do grupo de jovem guarda Os Brasas, homenageado por Ben Jor com a música Luiz Vagner Guitarreiro), Branca Di Neve (falecido em 1989), Carlos Dafé, Dhema, Franco (também ex-Os Brasas), Abílio Manoel e Hélio Matheus.
De fins dos 60 para os 70 são gravadas as músicas que iriam se tornar os grandes clássicos dos bailes: "Pena verde" e "Luisa manequim", de Abilio Manuel, "Zamba-bem", de Marku Ribas, "Para sempre sem Bronquear", pelos Golden Boys, "Guitarreiro", de Luiz wagner. Os anos 70 trazem a fase áurea dos Originais do Samba, com sambas swingados como "Falador Passa Mal" e "Do Lado Direito da Rua Direita". Em fins dos anos 70, o disco Baiano e os Novos Caetanos, traz a célebre "Vô Batê pra Tú", de Arnaud rodrigues e Orlandivo. Nomes como Erlon Chaves, Bebeto, Di Mello, Orlandivo, Elizabeth Viana, Dóris Monteiro, nem sempre devidamente lembrados quando se fala se MPB, são os grandes nomes quando o assunto é samba-rock. Já no começo dos anos 80, o grande Branca de Neve grava dois discos antológicos, deixando várias pedradas como "Kid Brilhantina" e "Nego Dito" (uma reconstrução, ou desconstrução fantástica de Itamar Assumpção). Vale dizer que o célebre hit "Não Adianta", com o Trio Mocotó, foi gravado nos anos 70, mas só chegou aqui pelos 80, se tornando um sucesso.
O tremendão Erasmo Carlos contribuiu para o estilo, marcando presença com os clássicos "Mané João" e "Coqueiro Verde", imortalizada para sempre como samba-rock pelo Trio Mocotó. A nossa bossa nova, relida e misturada com o blues e com o jazz pelos gringos é outra fonte de hits dos bailes, a exemplo de "Soul Bossa Nova", com a orquestra de Quincy Jones.

quarta-feira, março 01, 2006

Dia 15 de março é meu Aniversário. 36!

Neste próximo dia 15 de março estarei completando meus 36 anos.
Presentes? O meu objeto de desejo é o DVD do Malcolm X, filme de spike lee, mas ainda não foi lançado no Brasil.Ele foi, é e será um dos melhores filmes sobre a questão negra. É uma pena o cineasta ter se perdido nestes ultimos filmes Quem souber me indicar onde está disponivel para compra. Fora isso, qualquer livro sobre a questão negra é bem vindo! ou Black Movie.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Bob Marley


Say I remember when we used to sit
In a government yard in Trenchtown
Observing the hypocrites
As they would mingle with the good people we meet
Good friends we have
Oh, good friends we have lost
Along the way
In this great future,
You can't forget your past
So dry your tears, I seh
No woman no cry
No woman no cry- Bob marley

O cineasta Steve Spilperg promete há anos fazer um filme sobre a vida de Bob Marley. Não seria má idéia, lembrando inclusive do sucesso de Ray, onde Jamie Foxx ganhou um Oscar por sua interpretação biográfica de Ray Charles. Apesar de muita gente curtir a sua musicas, pouca gente sabe muito sobre sua vida. Cumprindo nosso compromisso de informar sobre nossas figuras do movimento negro brasileiro mundial, vou falar – Quem Foi Bob Marley.
Ele nasceu ás 2 horas e 30 minutos da madrugada de 6 de fevereiro de 1945, fruto da união do Capitão Norval Marley, do Regimento Britânico das Índias Ocidentais, de 50 anos, e uma linda jovem jamaicana de 18 anos – Cedalla Booker, na pequena vila de Nine Mile, interior rural da Freguesia de St. Ann (Santa Ana), no norte da Jamaica. Recebeu o nome de batismo Robert Nesta Marley, mas nos primeiros anos de vida, não pode contar com o pai, que abandonou a mãe, passa assumir, uma outra família, na Inglaterra.
A jovem Cedella cansada da falta de oportunidades de emprego em St. Ann, pegou o pequeno Bob pelas mãos e resolveu arriscar a sobre na capital da Jamaica – Kingston. Sem dinheiro, acabou indo morar na maior favela da cidade: Trechtown. O lugar era medonho, uma vila edificada próximo ao escoamento de esgoto de toda metrópole.
Apesar da situação a favela tinha lá suas qualidades para Bob. Foi lá que conheceu aquele que seria um de seus primeiros parceiros musicais - Neville Livingstone, que era conhecido mesmo como Bunny. E como a Jamaica era possível captar ondes de emissoras de rádio dos Estados Unidos, sua influência musica, foi formada por músicos como Fats Domino e Ray Charles e outras vozes negras.
Nessa época, Bob conseguiu um emprego numa funilaria, mas já tinha a música como grande objetivo de sua vida. A busca desse objectivo ganhou dedicação exclusiva quando uma fagulha da solda com que trabalhava queimou-lhe o olho. O acidente não teve gravidade, mas contribuiu para largar o emprego e investir unicamente no aperfeiçoamento da sua música com Bunny.
Numa aula de musica do cantor jamaicano Joe Higgs, Bob e Bunny tiveram o impulso ideal para decidir o que desejavam ser no futuro – músicos. Foi também nestas aulas, que eles conheceram mais um dos futuros integrantes do The Wailers - Peter Macintosh, mais tarde apelidado de Peter Tosh.
Neste meio tempo surgiu ume estilo misturando ritmos africanos com o calipso, que ficou conhecida como Ska – uma batida rápida e ritmada. Quando Bob tinha 16 anos, conheceu um outro jovem adolescente talentoso, Jimmy Cliff, que lhe apresentou para a produtora de disco Leslie Kong. E nesta amizade conseguiu gravar sua primeira música “Judge Not”. A canção lançada em 1962 virou um hit jamaicano, junto com outra musica “One more cup of Coffee”. Mas a parte boa acaba aqui, pois Leslie não lhe remunera pelo sucesso e ele abandona a gravadora.
Em 1963, Bob Marley, Bunny, Cherrya, Junior Braithwait e Peter Tosh criar o Wailing Wailers. Nesta peoca entra em sua vida o produtor musical Clemet Dodd, da gravadora Coxsone, que registra a primeira canção do grupo: “Simmer Down”. Outro sucesso na ilha.
A vida de Bob se tornou o que sempre sonhou: os Wailing Wailers eram um sucesso com suas novas músicas - It Hurts to e Alone e Rule the Roadie e no dia 10 de fevereiro de 1966 acabou casando com uma mulher que estava apaixonado Rita Anderson.
Os Wailing Wailers' resolveram pouco tempo depois sair do Ska e passram para o Rock Steady. Isso criou o primeiro conflito no grupo, com Coxsone. Daí foi um passo para decidirem lançar um selo musical Wail 'N Soul'. Neste mesmo período nasceu à primeira filha de Bob e Rita Marley, a quem deu mesmo da mãe: Cedalla.
Artisticamente a vida do grupo mudou quando conheceram o produtor musical Lee Perry. Nesta fase foram lançadas as musicas “Duppy Conquerer”, “Soul Rebel”, “400 Years” e “Small Axé”.
Em 1970, entrou no grupo o homem de família Aston Barret e seu irmão Carleton, e os Wailers era o grupo mais ouvido em todo Caribe e excursionaram pela Suécia e Inglaterra. Em Londres Bob gravou Reggae on Broadway. Lá Bobo conheceu Crhis Blackwell, um dos diretores da Island Records Basing Street Studios e lá gravara, tempos depois o álbum “Catch a Fire” , bem recebido por críticos e era um dos primeiros álbuns de reggae.
No primeiro semestre de 73, os Wailers fizeram tr6es meses de excursão pela Inglaterra onde tinham até fã clube. Mas a turnê teve uma baixa, Bunny saiu do grupo e foi substituído por Joe Higgs, que seguiu em uma nova excursão, agora pelos Estados Unidos. Foram 4 apresentações de abertura para Sly and The Family Stone, que eram também atos públicos do Movimento Negro. A verdade é que no meio da turnê se tornaram até mais famosos que a turma do Sly e isso gerou ciumeira e 11 novos shows foram abortados.
Ainda em solo americano, eles fizeram uma memorável apresentação na Rádio KSAN-FM em São Framncisco, o que proporcionou que fosse conhecido pela juventude e abraçados pela industria fonográfica. Foi neste mesmo ano que foram lançadas as músicas : Get Up Stand Up e I shot the Sheriff, que foi regravada pelo guitarrista Eric Clapton, logo em seguida.
1975 é um ano de sucesso e tristeza para Bob, lança o álbum Natty Dread e já emplacando nas paradas de sucesso as canções: Talking Blues, No Woman No Cry e Revolution. O lado ruim é que Peter Tosh sai do grupo. Por outro lado já se destacavam como backing vocais o trio Rita Marley, Judy Mowatts e Marcia Grittiths.
Rastaman Vibration é o novo disco de Bob Marley e The Wailers em 1976, e eles ganham entre seus admiradores os Rolling Stone, que passam a também incluir reggae no repertório. A musica War está neste álbum e é uma grande contribuição de Bob para o Panafricanismo. A letra foi extraída de um discurso do Imperador da Etiopia Hailè Selassiè, nas Nações Unidas.
No ano seguinte Bob Marley decidiu participar da vida política de seu país a seu modo – fazer um concerto grátis no Parque de Heróis Nacional de Kingston em 5 de dezembro de 1976. Mas antes, dois homens invadem suas casa e atiram nele, esposa e dois amigos. Mesmo asssim, fez o show denominado The Smile Jamaica Concert.
Seguindo o espetáculo a banda foi para o REINO UNIDO. Enquanto eles estavam lá eles gravaram em 1977 " Exodus ". Possivelmente o melhor álbum deles, solidificou o estrelato internacional da faixa. Um grande número de pessoas em muitos países inclusive a Inglaterra e Alemanha. Também era um dos álbuns de topo do ano.
Durante a excursão européia, a faixa fez uma semana de espetáculos no Teatro de Arco-íris em Londres. Estava no começo da excursão quando Bob feriu o dedão do pé dele jogando futebol e no hospital foi diagnosticado depois como um tumor maligno, e dedo deveria ser amputado, mas o cantor, preferiu não fazê-lo
Em 1978 foi lançado o disco “Kaya” – o mais pop de todos mais os álbuns. Os críticos acusaram Bob se tornar comercial demais e fazer apologia a ganja -maconha. Em abril deste mesmo ano, o cantor retornou a Jamaica para tocar no Show One Concert Peace And Love, e atendendo a um pedido dele o presidente jamaicano Michael Manley e o líder da Oposição Edward Seaga deram um aperto de mão. Havia entre ambos uma animosidade, que desestabilizava o país
Em 15 de junho de 1975, Bob foi premiado a Medalha de Paz do Terceiro Mundo das Nações Unidas por seu trabalho artístico e esforço pela paz em seu país. Neste mesmo ano visitou a África pela primeira vez, passando pelo Quênia e Etiópia. Nesta viagem ele começou a trabalhar na canção " Zimbabwe ". A faixa também lançou o segundo álbum dele " Babylon by Bus " que foi gravado em Paris. O álbum que seguiu isto era Survival em 1978.
Em 1980 a faixa tocou no Gabão pela primeira vez e o governo de Zimbabwe convidou Bob Marley e The Wailers para a executar musica feita em homenagem a país na Cerimônia de Independência de países em abril. O cantor reconheceria tempos depois que foi a maior honra que recebeu em vida.
Ainda em 80, ele lançou o álbum: Uprising e tudo estava parecendo maravilhoso, e para completar o cenário o grande Stevie Wonder estava colocando o grupo para abrir suas turnês nos Estados Unidos naquele mesmo ano. Entretanto a saúde de Bob estava se deteriorando, mas ele ainda obteve liberação de um doutor para viajar. A excursão começou com Boston, seguido por Nova Iorque.
Durante o espetáculo de Nova Iorque Bob parecia muito doente e ele quase desmaiou. A manhã seguinte em 21 de setembro enquanto Bob corria pelo Central Park desmaiou novamente, sendo encaminhado imediatamente para um hospital. Lá foi diagnostica um tumor de cérebro e a equipe médica lhe avisou que tinha apenas um mês para viver.
A mulher dele, Rita quis imediatamente cancelar a excursão mas Bob quis continuar. E assim ele tocou em um espetáculo inesquecível em Pittsburgh, mas estava muito doente para continuar e a excursão foi cancelada. Bob foi transportado para um hospital de Miami, para tratamento. A família recorreu a um tratamento controverso na clínica do Dr. Joseph Issels, na Bavária. O tratamento de Issels era controverso por usar apenas remédios naturais e não tóxicos e, por algum tempo, pareceu estabilizar a condição de Bob, mas que não adiantou muito.
Bob quis morrer em casa e tentou chegar até a Jamaica, mas sua viagem terminou em Miami, nos Estados Unidos, na segunda-feira, dia 11 de maio de 1981 em um hospital. Sua forte foi uma comoção internacional e seu enterro no dia 21 de maio reuniu milhares de pessoas na Jamaica, inclusive o presidente Jamaicano e o líder da Oposição.
O corpo de Bob Marley foi colocado em um mausoléu no local de nascimento dele. Depois de sua morte foi premiado a Ordem de Jamaica de Mérito.

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Frederick Douglas



O orador e o jornalista afro-americano Frederick Douglas nasceu em Tuckahoe, no Condado de Talbot, Maryland, provavelmente em fevereiro 1817.
Sua mãe era uma mulher negra de inteligência excepcional, e seu pai era um homem branco. Até quase oito anos de idade, ficou sob o cuidados de sua avó; então viveu por um ano na plantação do coronel Edward Lloyd.
Depois foi enviado a Baltimore, onde viveu na família de Hugh Auld. A Senhora Auld tratou-o com a bondade e sem que seu marido soubesse começou a alfabetizá-lo. Frederick acumulou uma certa quantia, em um trabalho de carregador e assim conseguiu financiar seu primeiro livro, O Orator Columbian.
Douglass começou a escrever sobre a coragem das pessoas que fugiam da escravidão. Em 1833, foi enviado para as plantações de Thomas Auld, que o emprestou por um ano a Edward Covey que tinha a reputação de ser severo com os escravos, mas quem não conseguir dominar Frederick.
Outro aliado foi, William Freeland, que possuiu uma plantação grande perto de St. Michaels, que o tratava com muita bondade. De lá tentou escapar em 1836, mas foi preso. Foi libertado, mas seu proprietário, Hugh Auld em Baltimore, o vendeu para um navio.
Douglass logo conseguiu conquistar a confiança da tripulação e conseguiu fugir, em 1838, fugindo em um trem de Baltimore a Nova Iorque. Por causa da perseguição dos caçadores de escravos fugidos, decidiu em assumir o nome de Frederick Augustus Washington Bailey a Frederick Douglass, na cidade de New Bedford, estado de Massachusetts.
Nesta cidade, conseguiu trabalhar livremente por três anos, mas em agosto de 1841, após uma reunião de abolicionista em Nantucket, acabou se tornando um militante da causa, articulando o movimento em, principalmente em Nova Inglaterra e nos outros estados.
Mas algumas pessoas começaram a duvidar de seus relatos como ex-escravo, e por isso foi obrigado em 1845 a publica o livro: A Narrativa da Vida de Frederick Douglass, Um Escravo Americano. Mas seus amigos, preocupados com os rumores de que pudesse ser preso e escravizado o convenceram a ir para Inglaterra. E assim o fez, ficando na Europa por dois anos.
Palestrando na Irlanda, Escócia e Inglaterra, Douglass obteve apoio popular a Abolição da Escravidão na América. Também obtém o beneficio de uma lei que tornava livre, todo o escravo, que fosse para outro.
De 1847 a 1860 Frederick trabalhou em um jornal semanal do abolicionista, intitulado A Estrela do Norte, e depois rebatizado de The Paper of Frederick Douglass. E lutou nos bastidores da política americana para a real libertação dos escravos, lutando pela igualdade racial. Na Guerra Civil da Secessão sugeriu a criação de uma tropa de soldados negros
Depois da Guerra ocupou vários cargos no Governo Federal. Casou com Helen Pitts, e teve com ela os filhos: Rosetta, Henry, Frederick, Redmond e Annie.

Franz Fannon



A vida de Frank Fannon, médico e pensador anticolonial foi curta, mas que rendeu ao mundo uma obra fantástica Pele Negra, Mascara Branca, escrito em 1952. Ele nasceu na ilha de Martinica, em 1925, filho de um casal de classe média franceses. Sua vida mudou, quando aos 18 anos se ofereceu para lutar no Exercito de Resistência a Ocupação Nazista na Franca. Logo após a Segunda Guerra Mundial, passou a cursa medicina e se especializou em psiquiatria na Faculdade de Lyon.
Foi neste período, que começou escrever artigos sobre os problemas políticos na Franca, colônias e no mundo. Casou-se com uma francesa, Josephine Duble. E em 1952, escreveu ainda em solo francês, o seu livro: Pele Negra, Mascaras Brancas, que analisa o racismo e os efeitos da colonização, lançado em Lyon.
O livro é fruto da consciência negra do Fannon, que analisa do mundo dos brancos sob a ótica de um intelectual negro e textualiza psicologicamente a difícil relação entre colonizador e colonizado.
Em 1953, Frank assume o departamento de psiquiatria do Hospital de Blida-Joinville, em Argélia, então colônia francesa. Lá tem contato com pessoas do movimento de libertação do país, torturadas pelo exercito francês. Três anos depois, renuncia se cargo para se dedicar ap Movimento Argelino de Independência. Após a libertação do país, do jugo francês, ele torna-se embaixador do governo provisória da Argélia, em Ghana.
Infelizmente em Ghana, Fannon descobre que tem leucemia, mas recusa o conselho de amigos para descansar. Terminou texto analisa dos efeitos do colonialismo e morre no dia 6 de dezembro em Bethesda, Maryland – Estados Unidos, no ano de 1961. Foi enterrado com honras pelo Exercito Nacional de Libertação. ltural, 1995.

Texto do Preto Cosme sobre Franz Fannon

Nascido numa família antilhesa remediada, Fannon fora ferido em combate em França, já no final da II Grande Guerra. Ironia da sorte, o cabo Fannon receberia a cruz de guerra das mãos do coronel Salan, futuro golpista branco em Argel. Uma bolsa de estudo permitira-lhe entretanto inscrever-se, em 1947, na faculdade de medicina de Lyon, acabando por vir a trabalhar no hospital psiquiátrico de Blida. Em 1952, ano em que casa com uma francesa metropolitana surge na editora Seuil o seu primeiro livro Peau noire, masques blancs. Denuncia logo aí a dominação branca, tomando o partido dos rebeldes argelinos.
A insurreição que estes haviam iniciado a 1 de Novembro de 1954 transformar-se-ia na longa guerra da Argélia; Fannon viu aí uma guerra colonialista-tipo, demitindo-se em 1956 do seu lugar de médico-chefe em Blida e juntando-se em Tunis aos dirigentes da FLN. Colabora então em dois jornais da Frente, Résistance Algérienne e depois El Moudjahid, aderindo à FLN na primavera de 57. A trabalhar no ministério da informação do governo provisório da república argelina, seria delegado em 1958 ao Congresso Pan-africano de Accra.
Na capital de Gana conhece então Kwame Nkrumah, líder ganês e panafricanista da primeira linha, Félix Moumié, revolucionário camaronês que viria a ser assassinado pelos serviços secretos franceses, o sindicalista queniano Tom M'Boya, o angolano Holden Roberto. Deste banho de panafricanismo sairia um ensaio-bomba, L'An V de Ia Révolutíón Algérienne, obra que viria a ser rapidamente proibida em França. Fannon torna-se então uma figura de proa da jovem guarda daquela que viria a ser a extrema esquerda francesa; militantes dissidentes das Juventudes Comunistas ou cristãos de esquerda admiravam o homem de ação, o militante terceiro-mundista, o negro insubmisso que combatia a sua própria pátria.

No II Congresso dos Escritores e Artistas Negros que teve lugar em Roma em 1959, Fannon desenvolveu a idéia de uma relação dialética entre cultura nacional e luta de libertação Passa a falar alto e forte nas conferências fundamentais do terceiro-mundismo afro-asiático, de Accra a Addis-Abeba. Atingido por uma leucemia, sabia, já nessa altura, que tinha pouco tempo de vida. Les Damnés de la Terre, livro publicado em 1961, algumas semanas antes da sua morte aos 36 anos, constituirá o seu testamento. O livro exalta o terceiro-mundismo com o mesmo lirismo de Aimé Césaire, cujo Cahier d'un retour au pays natal fora saudado por André Breton, Léopold Sedar Senghor e Albert Memmi. O panfleto teve a caução de Sartre e da revista Temps modernes: "Também nós, europeus, somos dessacralizados: purifica-se aqui, através de uma operação dolorosa, o colono que existe em cada um de nós", escreveria Sartre. Acrescentando: "A arma de um combatente é a sua humanidade. Num primeiro tempo da revolta, é preciso usar a violência: abater um europeu é matar dois coelhos de uma cajadada, suprimir ao mesmo tempo um opressor e um oprimido, sobrando daí um homem morto e um homem livre". O jornalista Jean Daniel, chocado, reagiu no Espírito contra essa sacralização do colonizado e um terrorismo cego para o qual não havia vítimas civis inocentes, uma vez que o último culpado da barbárie não era aquele que fazia verter o sangue, mas sim o colonizador, o europeu, responsável pela engrenagem da violência.

Com uma linguagem vibrante, Fannon fazia a apologia da violência após haver descrito a despersonalização e a humilhação do colonizado, tratado como sub-homem, traumatizado, levado ao suicídio ou empurrado para combates fratricidas. A passagem à violência contra uma ordem e uma dominação todo-poderosa permitiria romper com o seu complexo de inferioridade. Emancipado, o colonizado reencontraria a sua identidade e, através dela, a sua dignidade. Melhor ainda, a violência revolucionária transformaria os indivíduos e permitira estabelecer entre eles novas e melhores relações de fraternidade: "quando elas próprias participam na violência da libertação nacional, as massas não mais permitirão que alguém se assuma como 'libertador'". Franz atribuiria ainda uma grande importância revolucionária aos desclassificados, aqueles sectores sociais que o colonialismo e o capitalismo haviam marginalizado.

Numa época de grandes combates anticolonialistas e do despertar no ocidente dos movimentos anti-racistas, as suas concepções não poderiam deixar de ter um lugar enorme na definição do imaginário combatente dos movimentos de libertação, das lutas pelos direitos cívicos dos negros e dos sectores mais extremistas e empenhadamente internacionalistas da esquerda.

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Rainha Nzinga Mbandi


Raínha Nzinga, Nzinga I, Raínha Nzinga Mdongo, Nzinga Mbandi, Nzinga Mbande, Jinga, Singa, Zhinga, Ginga, Ana Nzinga, Ngola Nzinga, Nzinga de Matamba, Raínha Nzingha de Ndongo, Ann Nzingha, Nxingha, Mbande Ana Nzingha, Ann Nzingha, e Dona Ana de Souza.

Filha de Nzinga a Mbande Ngola Kiluaje e Guenguela Cakombe Controversa líder feminina homenageada em Angola e no Brasil. Misto de libertadora com uma grande negociadora de escravos. Inteligente e cruel ao mesmo tempo. É difícil fazer um julgamento de seu caráter a tanta distancia cronológica.
A Historia de Nzinga começa com a ocupação portuguesa, em 1578, quando Paulo Dias de Novais funda a cidade fortificada de São Paulo de Assumpção de Luanda que se tornará a futura capital de Angola em território mbundu. O rei dos mbundu era Ngola Kiluanji, pai de Nzinga, resistiu por muitos anos à invasão de seu território. Ngola Kiluanji resiste à ocupação portuguesa. No entanto, uma parte do território é tomada, constituindo o primeiro espaço colonial na região. O rei Kiluanji refugia-se em Cabassa, no interior de Matamba, e consegue reter o avanço dos portugueses. Após a morte de Kiluanji sucede seu filho Kia Ngola Mbandi, meio irmão de Nzinga, que, inicialmente, também impediu o avanço do comércio escravagista para o interior. Uma das primeiras medidas de Kia Mbamdi foi matar o filho único de Nzinga, concorrente em potencial.
Ela também teve de aturar forte oposição interna por ser mulher e ter como mãe uma escrava – mancha grave em sua ficha, já que todo o poder, no reino, se baseava nas relações de parentesco. Nzinga fora criada pelo pai, o rei Jinga Mbandi, para ser uma rainha guerreira. Diplomata hábil, auxiliou seu irmão, mesmo rancorosa com o ato de assassinato de seu filho, negociando a devolução de territórios já ocupados pelos invasores. Recebida em Luanda com grande pompa pelo governador geral ela negocia sem ceder algum território e pede a devolução de territórios que obtém pela sua conversão política ao cristianismo, recebendo o nome de Dona Anna de Sousa. Mais tarde suas irmãs Cambi e Fungi também se convertem, passando a se chamar Dona Bárbara e Dona Garcia respectivamente.
Entretanto os portugueses ficam impacientes, e no desejo de estabelecerem o comércio com o jaga de Cassanje no interior, não respeitam o tratado de paz. A rebelião de alguns sobas (chefes), que se aliam ao jaga de Cassange e aos portugueses, cria uma situação de desordem no reino de Ngola.
Depois de saber da quebra do tratado, ela perguntou ao seu irmão para interceder e lutar contra a invasão portuguesa. Nzinga assume o comando da situação e ao encontrar um dos sobas, seu tio, que se dirigia a Luanda para se submeter aos portugueses, manda decapitá-lo, e dando conta da hesitação de seu irmão manda envenená-lo abrindo assim caminho ao poder e ao comando da resistência à ocupação das terras de Ngola e Matamba.
De volta da sua missão, faz sua vingança, reorganizando seu exercito, mas esperando o momento propício. Aclamada Rainha Nzinga vai atirar o sobrinho, recebendo-o alegremente para em seguida apunhalá-lo, deste modo acaba sua vingança. Os adversários portugueses respondem elegendo um chefe mbundu, Aiidi Kiluanji (Kiluanji II), como novo Ngola das terras do Ndongo.
A líder Nzinga, não conseguindo um acordo de paz com os portugueses em troca de seu reconhecimento como rainha de Matamba, renega a fé católica e se alia aos guerreiros jagas de Oeste se fazendo iniciar nos ritos da máquina de guerra que constituía o quilombo. Ele une-se a eles casando com um chefe jaga.

Aliou-se a guerreiros jagas passando a atuar em quilombos, com espaços e táticas de guerra semelhantes aos utilizados por seu contemporâneo Zumbi dos Palmares em terras brasileiras. Durante a guerra por liderar pessoalmente as suas tropas e proibiu de as suas tropas a tratarem de "Rainha", preferindo que se dirigissem a ela como "Rei". Em 1640, a rainha Nzinga e seus guerreiros atacam o forte Massangano, onde suas duas irmãs, Cambu e Fungi, são aprisionadas, sendo esta última executada. Aproveitando a ocupação temporária de Luanda pelos holandeses, recupera alguns territórios de Ngola com a adesão de alguns sobas (chefes). Salvador Correia de Sá y Benevides, general brasileiro, restaura a soberania portuguesa em Luanda e tenta restabelecer seu poder no interior.
Numa incursão do exército de Nzinga são aprisionados dois capuchinhos que a rainha aproveita para convencê-los de sua vontade de reconversão em troca do reconhecimento de sua soberania nos reinos de Ngola e Matamba e da libertação de sua irmã Cambu. O governador geral aceita libertar Cambu se Nzinga retificar um tratado limitando suas reivindicações a Matamba e renunciando aos territórios de Ngola, sendo o rio Lucala escolhido como fronteira.
Este tratado, de 1656, só vai ser posto em prática depois da ameaça da rainha voltar à guerra. Só assim o governo de Luanda libera sua irmã Cambu, mesmo assim depois do pagamento de um resgate de mais de uma centena de escravos. Cambu tinha ficado retida em Luanda por cerca de dez anos.
Há uma paz relativa no reino de Matamba até a sua morte aos 82 anos em 17 de dezembro de 1663. Sucede a Nzinga sua irmã Cambu, continuadora da memória de sua irmã, a rainha quilombola de Matamba e Angola.
Um episódio revela bem essas qualidades: Quando se apresenta como embaixatriz em Luanda, o governador recebe-a numa sala onde havia apenas uma cadeira e uma almofada o governador oferece-lhe a almofada, o que Nzinga recusa por ofender a sua dignidade real e senta-se no corpo ajoelhado de um dos acompanhantes da sua corte, eliminando a posição de inferioridade que sutilmente lhe era oferecida pelo governador. Quando a audiência foi terminada deixa a escrava na mesma posição. Perguntaram-lhe se esquecera a escrava, ela respondeu, que não costumava conduzir a cadeira utilizada em cerimônia de tal importância.
Despertou o interesse dos iluministas como a criação de um romance inspirado nos seus feitos (Castilhon, 1769) e citação na Histoire Universelle (1765)Obteve vitórias e uma relativa paz até morrer aos 82 anos de idade.
Dr. Carlos H. M. Serrano*
*CARLOS M. H. SERRANO, Nascido em Cabinda - Angola, é Professor de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. É vice-diretor do Centro de Estudos Africanos da USP, Autor dos livros "Os Senhores da Terra e os Homens do Mar"; "A Revolta dos Colonizados" (paradidático, com o prof. Kabengele Munanga); "Brava Gente do Timor" (com o prof. Maurício Waldman); e "Angola: Nasce Uma Nação"...
À memória de Beatriz do Nascimento, estudiosa dos quilombos e quilombola também.
BIBLIOGRAFIA
BALANDIER, Georges. Antropologia Política. São Paulo, Difusão Européia do Livro, 1969.
BIRMINGHAM, David. A Conquista Portuguesa de Angola. Lisboa, A Regra de Jogo, 1974.
CASTILHON, J.-L. Zingha, Reine D'Angola. Histoire Africaine. Bourges, Ganymede, 1993.
CAVAZZI, Pe. João Antonio (de Montecúccolo). Descrição Histórica dosTrês Reinos Congo, Matamba e Angola (1687). Lisboa, Edição da Junta de Investigações do Ultramar, 1965, 2 volumes.
MILLER, Joseph C. "Nzinga of Matamba in a New Perspective", in Journal of African History, XVI 2 (1975), pp. 201-16.
---. Kings and Kinsmen, Early Mbundu States in Angola. Oxford, Clarendon Press,1976.
SERRANO, Carlos. "História e Antropologia na Pesquisa do mesmo Espaço: a Afro-América", in África: Revista do Centro de Estudos Africanos da USP, 5, 1982, pp. 124-8.
---. Os Senhores da Terra e os Homens do Mar: Antropologia Política de um Reino Africano. FFLCH-USP, 1983.
SOROMENHO, Castro. "Portrait: Jinga, Reine de Ngola et de Matamba", in Presence Africaine, 3e. trimestre 1962, pp. 47-53.
** Artigo originalmente publicado na Revista da USP, nº 28 ( Dossiê do Povo Negro )
- Fonte: Cartilha “Mulher Negra tem História” -
Alzira Rufino, Nilza Iraci, Maria Rosa Pereira, 1987, Santos;
Roy Glasgow - "Nzinga"- ed. Perspectiva, Col. Debates - 1982 - SP

quarta-feira, janeiro 25, 2006

Ângela Davis




O nome verdadeiro é Ângela Yvonne Davis, nascida no dia 26 de janeiro de 1944, em Birmingham, estado do Alabama. O fato que a tornou famosa, já aconteceu há quase 36 anos, em Marin County, estado da Califórnia, dia 7 de agosto de 1970. Ela foi acusada de fornecer as armas usadas pelos militantes dos Panteras Negras, no protestos que fizeram da Assembléia Legislativa daquele estado.
Desde pequena Ângela revelou um alto grau de inteligência, e após a destacar-se já no colegial conseguindo uma bolsa de estudo para estudar Literatura Francesa, em Nova Iorque, ficando hospedada na casa de um pastor branco progressista, em 1959. Em 1960, foi até Frankfurt, Alemanha, onde ficou dois anos, sendo aluno dos reconhecidos professores Theodor Adoro e Oscar Negt. Depois, entre 1963 a 1964, ela foi privilegiada com aulas em Paris, na escola de Sorbonne, onde curso Literatura.
No retorno aos Estados Unidos, Davis ainda continuou estudando, entrando na conceituada Universidade Brandeis, estado de Massachusetts, para fazer Filosofia. Terminado o curso ela retornou a Alemanha para fazer pesquisa de mestrado que fazia na Universidade de Califórnia, em San Diego, conseguindo o feito em 1968.
Por influencia de um professor, Herbert Marcuse, Ângela filiou-se ao Partido Comunista dos Estados Unidos. Sim, até lá existia a legenda, entretanto seus militantes eram perseguidos, devido ao clima da Guerra Fria com a União Soviética. O ano era 1969, e ela acabou sendo discriminada na universidade, controlada por anti-comunista, sendo arbitrariamente proibida de ministrar aulas.
A atitude deixou Ângela, revoltada, que acabou aumentando sua ligação com a militância política, onde passou a militar no SNCC Student Nonviolent Coordinating Committee (Comitê Conjunto de Não Violência dos Estudantes). Depois se tornou simpatizante do grupo político e social de combate ao racismo, Panteras Negras. O grupo foi uma opção atraente para ela, pois não tinha uma abordagem machista junto as militantes, diferente de outras organizações afro-americanas. Além disso, os Blacks Panthers, tinha uma ideologia de esquerda, a mesma que a dela.
Mas os Panteras Negras estavam se tornando um grupo muito forte e ramificado nos Estados Unidos. Principalmente na sua postura contra a violência policial, onde defendiam pessoas negras de policiais racistas e outros grupos armados. Pressionados por setores conversadores e pelo então governador Ronald Reagan, a Assembléia Legislativa da Califórnia, discutia em agosto de 1970 a aprovação da lei Mulford – que proibiram que os cidadãos pudessem portar armas nas ruas. O projeto era direcionado sob medida para desarmar os Panteras Negras.
Os líderes do grupo Bob Seale e Huey Newton decidiram pacificamente até o prédio da Assembléia californiana e discutir com os deputados estaduais o projeto de lei, expondo seus pontos de vistas e iriam propor emendas ou a não aprovação dele. No comando de 29 militantes, Bob tomou um caminho errado nos corredores do local, e acabou entrando no plenário. Imediatamente favoráveis à proibição, aproveitaram da ocasião para acusá-los de tentar intimidar o Poder Legislativo, pois estavam portando armas naquele local. Todos foram detidos, por seis meses.
O FBI que tinha como diretor o anticomunista e segregacionista Edgard Hoover, enxergou na ocasião uma chance de desqualificar e desmantelar os Panteras Negras. Acusaram a organização de ser subversiva ao Governo Norte-Americano, e acusaram Ângela Davis, de ser uma das mentoras da invasão ao plenário da Assembléia da Califórnia. Ela ainda tentou se esconder, até que fosse provada sua inocência, mas foi capturada pelo FBI e teve que amargar 17 meses na prisão.
Porém neste momento, Ângela Davis já tinha se tornado uma grande liderança feminina negra e aproximadamente 30 minutos após sua detenção na Casa das Mulheres de Detenção, em Nova Iorque, uma multidão de 300 pessoas, foram defronte ao local, prestar-lhe solidariedade e pressionar as autoridades por suas liberdade. Dentro da cela, as outras mulheres lá detidas, também se manifestaram em apoio a ela, numa atitude que assustou inclusive o FBI, devido a popularidade.
Imediatamente foi criado um Movimento Internacional pela Libertação de Ângela Davis e outros líderes dos Black Panthers. Personalidades como o cantor John Lennon, o líder cubano Fidel Castro, os intelectuais Jean Paul Sartre e Jean Genet e inclusive o famoso maestro Leonard Bernstein, que fazia apresentações com a finalidade de arrecadar fundos para financiar o pagamento dos advogados dos acusados. E mesmo Davis, dentro da cela, conseguiu com contribuições de militantes formar uma biblioteca jurídica que usou para ajudar a formular sua defesa nos tribunais.
Seu julgamento foi um dos maiores emocionantes dos Estados Unidos, onde obteve finalmente a sentença de inocência diante da falta de provas do FBI, em junho de 1972. E isso aconteceu mesmo com um júri composto inteiramente por brancos, sendo sete homens e apenas duas mulheres. No mesmo ano foi recebida pelo alto comando do Kremlin, União Soviética, que também participou da campanha internacional pela libertação dela. Em 1980, fez um ato inédito e audacioso – candidatou-se à vice-presidente dos Estados Unidos pelo Partido Comunista.
Atualmente, Ângela é professora do Departamento de História da Universidade da Califórnia, a mesma que a lhe negará a chance no passado. Continua sua militância política de combate ao racismo e na defesa dos direitos das mulheres. Já este no Brasil por diversas vezes, convidada por organizações-não-governamentais de mulheres negras.
Além disso, a filosofa Davi, é escritora dos livros: Women, Race and Class (Mulheres, Classe e Raça) – sobre o movimento feminista; If They Come in The Morning: Voice Of Resistence (Quando Vier o Amanhecer: Vozes da Resistência) – que traz uma análise marxista da opressão racial dos Estados Unidos e o ultimo é Blues Legacies And Black Feminism (O legado do Blues e o Feminismo Negro) – que retrata a contribuição das mulheres negras do inicio do século 20 para o feminismo, principalmente através de cantoras como Billie Holiday e Bessie Smith.

terça-feira, janeiro 24, 2006

REVOLTA DOS MALÊS




É noite e os homens vão chegando, no porão de uma bela casa, localizada na ladeira da Praça. Todos entram murmurando baixinho e cordialmente: As-Salamm-Alaikum e ouvindo como resposta: Wa-Alaikum-Salaam. É lá que Manoel Calafate reúne negros libertos ou escravizados, para iniciá-los nos ensinamentos do Alcorão e prepará-los para uma batalha pela liberdade. Será a maior revolta urbana de negros. Entretanto, eles não sabem, mas todos os planos já foram delatados para as autoridades policiais. Em pouco tempo, ao invés de lutar pelo povo negro mulçumano, terão primeiro que manter a própria vida.
A Revolta dos Malês, assim denominada pelo senhores de escravos e seus historiadores, foi na verdade uma Grande Insurreição Urbana Negra e Mulçumana ocorrida no dia 25 de janeiro de 1835, é dos episódios mais importante e pouco divulgados da História do Brasil. Mostra não só a força e estratégia da população negra, onde fielmente é retratada a resistência daqueles que eram islamizados ao Sistema de Escravidão.

Osman Dan Fódio
Mas ela começa anos atrás e em outra latitude e longitude – no Sudão. Naquele país já assolado pela escravização do povo, um líder religioso lançou uma Jihad – uma guerra santa, iniciada em 1804. Ele era Osman Dan Fódio. Ele nasceu em 1754, na cidade Godir e era um fervoroso seguidor de Maomé.
Numa luta contra a decadência da sociedade sudanesa, Osman, lança com um exercito de seguidores uma batalha de implantação do Islamismo, que tem inclusive a promessa de acabar com o envio de mulçumanos ao regime de escravidão no continente americano. Muitos hauças que estavam no Brasil tinham feito parte dos seguidores de Osman Dan Fódio, que também decretaram em solo brasileiro uma Jihad contra o sistema de escravidão brasileiro, um colocaram como meta a conversão de negros à fé em Alá.

Independência do Haiti
Outro fato influenciador para a Grande Insurreição foi à vitória dos negros no Haiti, em 1804, que após uma guerra, vencerá até as treinadas tropas de Napoleão Bonaparte. Os relatos chegaram ao Brasil através de marinheiros e alarmou os senhores de escravos. Sem também esquecer a ainda forte presença da coragem dos moradores da extinta República de Palmares, que conseguiram por 100 anos resistir à escravidão.

Revoltas de 1807 e 1813
Com todos estes fatores, o clima nas senzalas estava esperançoso como nunca, de uma união de todas etnias africanas, para rebentar com os elos das correntes que os prendiam. E assim aconteceram com muitas tentativas de estabelecimento da liberdade. A primeira ocorre em 1807, no dia 26 de maio, quando uma rebelião negra hauças, dirigida por mulçumanos é reprimida, depois da delação do movimento. Eles se rearticulam para na madrugada do dia 28 de fevereiro de 1813, num grupo de seiscentos negros, com a meta de conquistar a capital – Salvador. Na cidade de Itapoã, onde são detidos por fazendeiros e a força policial.
No mesmo ano, um outro grupo, tentou novamente tomar a capital baiana, no dia 24 de junho – aproveitando-se a grande festa de São João, que deixavam as defesas da cidade relaxadas. Mas foram delatados, por um dos integrantes um negro hauça, de nome João, por uma motivação egoísta: estava descontente, pois queria que a rebelião fosse deflagrada no dia 10 de junho. 39 pessoas foram detidas, em um processo que terminou em 1814. Resultados – doze faleceram nas péssimas condições das prisões, quatro foram enforcados na praça da Piedade, em 18 de novembro e o restante degredado para Angola, Bengala e Moçambique.

Insurreição em 1830
No ano de 1830, com outra tentativa frustrada de rebelião negra, no dia 10 de abril. Primeiramente um grupo de negros escravizados, conseguiu se articular e realizaram um ataque surpresa a uma loja de armas, na ladeira da Fonte das Pedras, em Salvador. Após dominar o proprietário, Francisco José Tupinambá, conseguem doze espadas. Depois foram em direção a Casa de Ferragens, mas são detidos no caminho, por senhores de escravos e seus funcionários, armados de bacamartes e espadas.
Estrategicamente eles recuam e se refugiam dentro de uma casa. Refeitos do susto, se reagrupam e atacam uma outra casa de ferragem e adquirem mais armas. Com a repercussão da vitória, pessoas escravizadas acabam aderindo e somando-se ao grupo rebelde, chegando num total de 100 integrantes.
Com esse numero de guerreiros, o grupo tenta tomar uma base da policia, onde estavam sete soldados e um sargento. Pegos de surpresa, os guardas são derrotados. Mas os fazendeiros, com seus empregados unem-se a outro grupo de policiais, que bem armados, conseguem derrotar o grupo de rebeldes, matando 50, fazendo 41 prisioneiros. No final: são apontados como líderes os afro-brasileiros Nicolau e Francisco e são condenados a 400 chicotadas, divididas em 50 açoites diários.

A Grande Insurreição de 1835
Portanto, quando chegam em 1835, já há muito experiência e grau de preparação é grande, para evitar erros e enfim tomar a cidade de Salvador. Mas a motivação é religiosa: uma guerra santa contra os brancos cristãos e a conversão de negros para a crença em Alá.
A organização foi feita com meses de antecedência onde os lideres, formaram coordenadores, encarregados e percorrer a zona rural e conseguir a adesão fr mais negros. Havia ainda um clube secreto em Vitória, nos fundos da casa de um inglês de nome Abrão.
Em Salvador os pontos de reuniões eram as casas de Belchior da Silva Cunha, Pacifico Licutã, Manuel Calafate, Elesbão Dandará e Luís Sanim, entre outras.O grupo rebelde foi estrategicamente ramificado entre as Calafate, Belchior, Sanim, Dandará e Licutã e do outro lado outros negros dirigidos por Jamil, Diego e James – formado dois núcleos. Eles ainda contavam com um fundo de financiamento que chegou a quase 80 mil réis, recolhidos entre os simpatizantes da causa.
Mas como uma verdadeira Jihad, era necessária a coordenação religiosa de um grande muláh. Esse papel foi exercido por um dos personagens mais misteriosos da insurreição: Ahuna. Era um nagô, de aproximadamente 40 anos, que tinha no rosto quatro sinais étnicos. Tinha o respeito de todos os outros líderes, por sua coragem e fé em Alá. Nos relatos oficiais, todos os interrogados sob tortura, refeririam como Ahuna como o comandante máximo da revolta. Mas não há muitas informações precisas sobre sua identidade. O pouco que se sabe é sua moradia – uma habitação na região do Pelourinho, e que teria ido até o Recôncavo para conseguir adeptos a causa.
O plano era extremamente elaborado: um grupo partiria de Vitória, conquistando território e matando os brancos que resistissem. Este grupo ainda estava encarregado de ir a direção a Salvador, passando por Água dos Meninos, e em seguida, marchar para Itapagipe, conseguindo adesão de pessoas escravizadas. Chegando na capital baiana, se uniriam aos grupos rebeldes dentro da cidade, onde ao sinal de um foguete a ser lançado, cairiam sobre as forças policiais, e destituir as autoridades.
A proposta tinha uma grave falha: era direcionado apenas para os negros convertidos para o Islamismo. Entre as medidas extremas estava previsto inclusive o assassinato das pessoas que se recusavam a se converter e a transformação dos “infiéis” em escravos novamente. Uma verdadeira perversão do Alcorão, e um perigo para os africanos de outras etnias que se recusavam optar por esta situação: deixar a submissão ao branco e cristão, para serem subjugados por africanos maometanos.
Com base neste defeito na estratégia, aliado a falta de armamento condizente para enfrentar as forças policiais e os senhores de escravos, e o medo de outros negros, novamente a tentativa de revolução foi detida por uma traição. A acusada é a liberta Guilhermina Rosa de Souza, que procurou um negociante de escravo, André Pinto de Silveira, no dia 24 de janeiro – na véspera. Este avisou o chefe da policia Francisco Gonçalves Martins, que com base nas informações de Guilhermina foi a todos os locais de concentração rebeldes com seus soldados aliados por uma milícia armada de brancos e prendeu alguns lideres, para desmantelar o plano.
Avisado por espiões, os lideres resolveram por em andamento o plano na noite do dia 24 de janeiro. Da casa de Calafate, já partiu para o dar a vida em nome dos companheiros e de Ala. A coragem era explicada pela crença de somente os corajosos, poderem entrar no paraíso mulçumano. Foram até o local, onde Pacifico Lucitã estava preso, mas devido à resistência dos policiais, recuaram. Mas Chegando no Largo do Teatro, conseguiram fazer recuar os policiais, desta vez.
Na cidade baixa, próxima a praia, os guerreiros, alguns vestidos de roupas vermelhas e turbantes, travaram seu embate definitivo com os policiais. De um lado o próprio chefe dos guardas, Francisco e do outro Ahuna com seus guerrilheiros mulçumanos. Defronte ao Forte de São Pedro se atracaram. Com o uso da cavalaria, previamente acionada, os policiais venceram, e mataram 40 pessoas negras. Outros ainda tentaram fugir, nadando, mas no mar a espera deles, estava uma fragata, que carregada de soldados, massacrou muitos a tiro e a golpes de espadas. Por muitos dias depois as ondas nas praias de Salvador, trouxeram corpos desses guerreiros.
Cercado os grupos rebeldes, todos foram encarcerados. No total 281 pessoas, inclusive com inocente entre os detentos. Muitos foram condenados a centenas de açoites e outros degredados para África. Foram sentenciados a forca: Jorge da Cunha Babosa, Jose Francisco Gonçalves, que eram libertos, junto com os escravizados Gonçalo, Joaquim e Pedro. Mas as autoridades não encontraram ninguém com coragem de enforcá-los, sendo obrigados a fuzilá-los, honra só permitida a brancos.
A cidade nunca esqueceu dessa batalha. Em 1844 uma outra tentativa foi tentada por Francisco Lisboa e Marcelino de Santa Escolástica, sobreviventes da Grande Insurreição de 1835. Mas também foram delatados, desta vez, pela mulher de Francisco.

O que significa Male?
Na verdade ainda é um grande mistério o termo. Os hauças mulçumanos, se auto identificavam musulmi. Mas segundo o escritor Braz do Amaral, o nome deve ser derivado da palavra Má-lei, ou seja, escravo contra a legislação, rebelde.
Francisco Nina Rodrigues julgava que o male vem de mulçumanos negros de Mali, um reino de Niger, como descreve em seu livro Africanos do Brasil. O que é refutado por outros sociólogos, pois a revolta foi mulçumana, mas não só de uma etnia africana.

Luiza Mahin
Exceto através das declarações do advogado abolicionista Luiz Gama, não há muita informação sobre a participação de Luíza Mahin na Revolta dos Malês. Há indícios de que esta estaria ligada ao grupo de Manuel Calafate, mas que teria escapado entre os sobreviventes. Não lhe é creditada a liderança, em nenhum dos depoimentos colhidos pela Policia, mas é bom salientar que de forma honrosa, os interrogados não delataram os companheiros, mesmo sob forte tortura.Luiza seria uma nagô, da Costa da Mina, da etnia jejê, nascida livre em 1812. No período da Grande Insurreição de 1835, trabalhava como quitandeira, e por isso, era uma das pessoas que ajudavam a convidar pessoas para a causa mulçumana. A ultima informação de Gama sobre ela, que era sua mãe, é que ela teria saído de Salvador em direção ao Rio de Janeiro. Há teorias de que ela possa ter participado de outras insurreições e teria sido ou morta ou degredada, mas sem confirmação oficial, através de documentos