terça-feira, julho 12, 2005

A história de Pixinguinha



Antes de falar quem foi Pixinguinha, vou contar um episódio que beira o folclórico. Certa vez, Pixinguinha, altas horas da noite retornava para sua casa, quando foi abordado por um grupo de assaltantes. Num lance de candura, conseguiu convencer os bandidos a irem até sua casa, que sua esposa, Dona Bete, prepararia uma refeição para ambos. E assim, foi – chegando a sua residência, acordou a pobre esposa – para produzir jantar. Após saciar os criminosos, ele ainda deu uns trocados para que pudesse pegar um transporte para suas residências, e ainda deu conselhos. Esse era Pixinguinha.
Mas ele nasceu Alfredo da Rocha Vianna Filho, em 1897. Entretanto até nisso há confusão: em 1933, Pixinguinha foi retirar sua primeira certidão de nascimento. Vejam só: aos 36 anos de idade. E lá se registrou com o mesmo nome do pai, esquecendo de colocar o “Filho”. Até no nome da mãe, ele errou – de Raimunda Rocha Vianna, passou a Raimunda Maria da Conceição.
Seu apelido é fruto da junção de outros dois. Sua avó, Dona Edwirges – o chamava de Pizindim- que em banto quer dizer - menino bom. Já os seus amigos na época da infância o apelidaram de Bexiguinha – numa referencia as marcadas no rosto deixadas por varíola – doença que tinha sido acometido. Mistura dos dois – nasceu o Pixinguinha.
Quando criança percebeu cedo seu talento – não era bom de bola, mas era exímio em bolinha de gude e empinar papagaios, mas seu pai – seu Alfredo, flautista foi sua maior influencia. Ele já o imitava copiando o som da flauta em folhas de arvores. O genitor, ainda o encaminhou para aulas de bandolim e cavaquinho – aos 12 anos, mas a paixão do menino bom era pela clarineta de sons agudos. Foi insistindo até que passou finalmente a tocar flauta – inclusive uma do seu pai.
Seu ouvido apurado e talento musical não demoraram a ser notados. Com apenas 14 anos de idade foi contratado para o Conjunto da Concha, na casa de chope da Lara, Rio de Janeiro. O sucesso foi imediato – todos queriam ver e ouvir o mini-flautista. Não demorou e foi contratado para tocar no Ponto, no ABC e no Cassino. As apresentações adentravam a madrugada, mas o menino entusiasmado com a possibilidade de ganhar dinheiro e fazer o que gostava - nem ligava para o cansaço.
O que o jogou de vez no mundo artístico, foi o convite para tocar na orquestra do maestro Pauli Sacramento, no Teatro Rio Branco. Dali ao passou a ser visto por pessoas da alta sociedade que o contratavam para tocar em festas, teatros, clubes e até circos.
Sua carreira passou a ser gravada em disco de altas rotações desde 1911, com o choro “Lata de Leite”. Mas em 1915 um registro chama atenção: é para Casa Falhauber. Com o Choro Carioca, interpretou o tango brasileiro “São João Debaixo DÀGUA” – escrita por seu professor de flauta, Irineu de Almeida.
Participou ainda nessa fase do grupo “Diabos do Céu”.
Com 20 anos de idade, Pixinguinha gravaria as primeiras musicas de sua autoria: Sofres Porque Queres e Rosa – recentemente regravada por Marisa Montes.
Com o talento que tinha o jovem musico percebeu que precisava formar um grupo. Seu parceiro de primeira hora foi Nelson Cavaquinho e criaram o grupo – Os Batutas. O grupo foi bem recebido e em 1921 já eram convidados a ser apresentar no teatro Municipal do Rio de Janeiro – o ponto alto da carreira dos músicos da época.
No ano seguinte um empresário Arnaldo Guinle propôs uma temporada de apresentações em Paris. Os Batutas agradou tanto na capital da França, que acabaram ficando por seis meses. Porém o sucesso e o retorno financeiro não foram suficientes para segurar os desentendimentos internos no grupo, que acabou mudança sua formação. Os Batutas mudou tanto, que restou da formação original apenas Pixinguinha e Donga – cantor do primeiro samba gravado em 1917.
Pixinguinha foi convidado em 1926, a dirigir a orquestra do Teatro Rialto. Foi lá que conheceu a amor de sua vida – Albertina de Souza: uma bela estrela do Teatro de Revista. O encontro não poderia dar em outra coisa – casaram-se. Mas o musico sofreu dois anos depois com o fim definitivo do grupo Os Batutas. Sobrou para ele e Donga formarem a Orquestra “Pixinguinha-Donga” que gravou vários discos pela etiqueta Parlophon.
Nesse ano, 1928, o musica atingiu seu melhor período de produção artística. Foi neste ano que foi composta a canção – Carinhoso, produzida a partir da parceria com o compositor João de Barros. Outra parceria foi com Benedito Lacerda concretizado na musica Ingênuo. Compôs ainda Já Te Digo, Lamento, A Vida é um Buraco. Em 1929, foi contratado pela gravadora RCA Victor, atual BMG, e no ano seguinte compôs Urubu Malandro.
Aos 35 anos, o musico forma o grupo da Velha Guarda e oito anos depois abandona a flauta para optar pelo saxofone. Essa história é explicada por um triste fato: Pixinguinha não conseguia manusear o instrumento antigo, devido a danos físicos que o alcoolismo o estava causando. É a exemplo dos músicos do Jazz, ele estava viciado.
O episodio com as bebidas rendeu um choro “Briguei com Virginia”. Muitos pensaram que fosse uma mulher, antiga paixão. Mas o nome é referencia em nome de uma marca da pinga.
Seus grandes sócios de copo eram Donga e João da Bahiana, que se encontravam quase todos os dias no centro do Rio antigo, no Bar Gouveia, sempre aos fins de tarde. Eles e autodenominavam “nós somos um poema”.
Mas a flauta não foi abandonada – encontrou um parceiro – Benedito Lacerda, flautista que acompanhou em gravações e apresentações. Dessa união surgiram Um a Zero, Sofres Porque Queres, Proezas do Sólon, Oito Batutas, o Gato e o Canário e Ainda me Recordo. Foram quinze anos de musicas que a Musica Popular Brasileira agradece.
Tocou ainda com os cantores Francisco Alves, Chico da Viola, Mario Reis, Silvio Caldas e até Carmem Miranda, sempre com arranjos de sua autoria.
Em 1952, na Igreja de São Geraldo, por ocasião das bodas de pratas com enlace com Dona Betinha, ao chegarem à missa, notou-se que o organista tinha faltado. Não fez de rogado, foi ele mesmo manusear o instrumento e o filho, Alfredinho, ficou do lado da mãe, tomando seu lugar na missa.
Sete anos depois, o prefeito do Rio de Janeiro, Negrão de Lima, homenageou Pixinguinha, dando nome dele a rua onde se localiza sua residência. Mas a placa de inauguração não durou muito – foi furtada por seus amigos, os escritores Sergio Porto – o Stanislaw Ponte Preta e Lucio Rangel.
Anos 60, entram em cena a Bossa Nova e novas amizades. Uma delas é Vinicius de Moraes. Os dois em 1962 escrevem a trilha sonora do filme Sol Sobre a Lama. Vinicius não sabe se trabalha ou passa o dia admirando a forma de produzir melodias do mestre Pixinguinha. Na musica Lamento, o poetinha coloca a letra e nos dá uma ótima composição.
Dois anos depois o coração do musico fraquejou – teve um enfarte. Internado ele compõe 20 musicas. Entre elas: Solidão, Mais Quinze Dias, Harmonia das Flores, No Elevador, mais Três, e Vou para Casa. Nessa epoca em parceria com Hermínio Bello de Carvalho escreveu “Fale Baixinho”, sendo musica finalista num festival de canção. A partir daí passa a ter uma vida menos agitada, se retirando da vida noturna, para cada vez mais raras apresentações.
Em 1971, Dona Betinha passa mal e é internada, e dois dias depois, ele acaba sofrendo com problemas cardíacos e também vai para o mesmo hospital. Para não deixar a esposa preocupada, finge não estar hospitalizado, veste uma boa roupa, terno e chapéu e com flores nas mãos vai visitá-la. O Hospital em questão é o IASERJ. A farsa era combinada com o filho, Alfredinho e por acontecer no horário de visita do estabelecimento de saúde, ela não percebia. Ou fingia não saber. Vinicius sabendo do fato disse que não fosse ele mesmo, queria ser Pixinguinha.
Mas o problema de saúde da dona Betinha, era sério. No dia 7 de junho de 1972, aos 72 anos, era morreu. Ele foi brutalmente afetado pelo fato. Meses depois, em fevereiro, durante o carnaval de 1973, Pixinguinha foi a Igreja de Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, batizar o neto Oscar Rodrigo. Enquanto conversava com os amigos presentes, passou as sentir dificuldade respiratória. Era um novo enfarte. Seu filho, Alfredinho, ainda tentou leva-lo até a sacristia para que pudesse repousar a tempo de alguém encontrar um médico para pronto atendimento.
Lamentavelmente ás dezesseis horas e trinta minutos do dia 17 de fevereiro de 1973, ali mesmo na sacristia, aos 74 anos, nos deixava o grande Pixinguinha. Ele mesmo não esperava a morte, pois previa viver até os 80 anos, mas não foi possível.
Era carnaval e a Banda de Ipanema, que se preparava para uma apresentação, avisada do fato, parou. Não havia clima para festa. Partiu o Batuta, o menino bom, chegando ao céu, não ao som das harpas. Nesse dia, Deus fez exceção – pediu que os anjos tocassem flautas e saxofone. Há quem jure que a partir desse dia, os grandes músicos brasileiros ao morrer, são recepcionados por ele, com seu sorriso fácil e bom humor eterno.
Deixou além de Vinicius, muitos fãs, Tom Jobim, Chico Buarque, Caetano Veloso, Edu Lobo, Baden Powell, Paulinha da Viola e até m vida Sabotage, rapper, se inspirava nele. Jacob do Bandolim – um dos maiores bandolinista brasileiro - dois dias antes de morrer, 1969, visitou Pixinguinha. Disse que fazia aquilo para pedir a benção a seu santo.
Tinha ainda entre seus admiradores ilustres intelectuais como Sergio Buarque de Hollanda, Rui Barbosa e Mário de Andrade que no livro Macunaíma criou um personagem especial para o musico na historia – “um negão filho de Ogum Bexiguento fadista de profissão. Isso em 1926.

Um comentário:

Thereza Pires disse...

Oi,Marco Antonio
Aqui descobri o nome da avó de Pixinguinha,
Estou escrevendo uma pequena historinha sobre ele,para ser contada aos alunos de ume ONG /escola-modelo em Paraisópolis,SP
Sou coleguinha jornalista e moro no Rio.
Parabéns pela militância, pelo seu belo site de conteúdo tão esclarecedor
Thereza

textosdetherezapires@blogspot.com