sexta-feira, janeiro 06, 2006

QUEM FOI THEODORO SAMPAIO?

Theodoro Fernandes Sampaio possui uma origem humilde. Descendente de africanos, ou seja, filho de uma pobre escrava nasceu em 07/01/1855 no Engenho Canabrava, numa senzala, no município de Santo Amaro, na Bahia.
Desde pequeno mostrou ter inteligência e facilidade para aprender. Aos 9 anos (1864) foi enviado ao Rio de Janeiro, sendo matriculado no Colégio São Salvador.
Em 1871 ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, onde se graduaria em Engenheira Civil em 1876, na primeira turma que lá se formou. Durante a faculdade dava aulas de matemática, geografia e latim em dois colégios da cidade. Neste meio tempo, antes de se formar, foi admitido como desenhista do Museu Nacional devido à sua habilidade para o desenho, que anos mais tarde também poderá ser verificada nos inúmeros mapas que confeccionou. No Museu conheceu muitos cientistas estrangeiros, entre eles Orville, eminente geólogo americano, que Teodoro estaria unido por laços profissionais e de amizade pelo resto da vida.
Teodoro Sampaio fez expedições exploratórias pelo Rio São Francisco, onde registrou, na forma de mapas e descrições, os caminhos que percorreu, recolhendo assim material suficiente para elaborar um mapa da região. Suas observações geográficas e topográficas foram muito utilizadas e estudou profundamente nossos minerais, sendo considerado o pai da geologia brasileira.
Trabalhou pelo Governo Federal na Campanha de Canudos. Sob a credibilidade de seu trabalho reviu, a pedido do amigo Euclides da Cunha, todas as descrições geográficas e de paisagem da obra Os Sertões. O nível de detalhes geográficos dessa obra impressionou a muitos.
Em 1879 fez parte da “Comissão Hidráulica” para estudar os portos e a navegação interior do Brasil. Nesta Comissão, “apresentou, estudou e projetou os melhoramentos do porto de Santos, os do Rio São Francisco, no curso superior da Cachoeira do Paulo Afonso, até a de Pirapora, em Minas Gerais”3.
Depois disso, trabalhou na Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo (CGG) como chefe da Seção de Geografia, convidado pelo amigo Orville Derby, por mais de 6 anos, de 1886 a 1892, dedicando-se aos serviços de campo e de escritório. A partir desta data e até 1900, passou a acumular o cargo de inspetor na empresa canadense The São Paulo Tramway Light and Power Company.
Com Paula Souza, fundador da Escola Politécnica de São Paulo, promoveu a retificação e o saneamento do Rio Tamanduateí, do Parque D. Pedro até a desembocadura no Tietê. Foi diretor, de 1898 a 1903, da Repartição de Saneamento: restaurou o sistema de águas e esgotos e elaborou e executou planos de melhoramento urbanístico.
Foi também um dos fundadores do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, manifestando, por inúmeras publicações, seu polifacetismo: além daqueles de cunho técnico, encontram-se trabalhos de geografia, de língua Tupi, econômicos, sociológicos e, principalmente, históricos. Receberam condecorações internacionais pelos reconhecidos méritos de seus trabalhos históricos.
Depois de 18 anos em São Paulo, regressou à Bahia em 1904 para executar as obras de restauração nos sistemas de água e esgoto de Salvador. Tornou-se orador oficial e posteriormente presidente do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, onde produziu cerca de 200 discursos e conferências sobre temas históricos, geográficos, etnográficos e outros. Chegou a recepcionar o então aclamado Rui Barbosa quando este retornou à Bahia, sua terra natal.
Motivado pelos amigos, foi deputado federal, mas sem fazer política partidária, porque o desagradava: Esta atividade “não seduz lá muito aos espíritos que a moral há forrado de escrúpulos”, dizia Teodoro.
Chegou a concorrer a uma vaga na Academia Brasileira de Letras, contra sua vontade, mas por impulso dos amigos. Entretanto não obteve êxito, aceitando a derrota com a humildade que lhe era característica.
Tornou-se inevitavelmente uma celebridade da época devido à sua erudição, competência e simplicidade. Com serenidade de espírito, operosidade científica e o característico labor sem alarde, Teodoro foi um importante personagem na busca pela dignidade dos negros, devolvida somente em 1888. Gilberto Freyre coloca-o em especial destaque junto com outros engenheiros negros, como os irmãos Rebouças.
Passou os últimos anos de sua vida no Rio de Janeiro, onde lecionava gratuitamente aos alunos da Escola Brasileira. Faleceu na Ilha de Paquetá em 15 de outubro de 1937, com 82 anos.
Foi mestre de Euclides da Cunha, como evidenciou Capistrano de Abreu: “O (Alberto) Rangel considera-se discípulo de Euclides da Cunha. Deste foi mestre Teodoro Sampaio”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Cintra, J.P. e M.J.F. Silva, 2001. O Início da Cartografia Sistemática no Brasil, In Anais do XX Congresso Brasileiro de Cartografia, Vol. II, Porto Alegre – RS, Brasil, pp 763-772.
Cintra, J.P. e Silva, M.J.F., 2001. Teodoro Sampaio e o Início da Cartografia Sistemática no Brasil. Relatório de Iniciação Científica PIBIC-CNPq 2000/2001. EPUSP – PTR. São Paulo. 131 páginas.
Lima, A. R. 1981. Teodoro Sampaio: Sua Vida e Sua Obra. Dissertação de Mestrado apresentada à Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Salvador. 146 páginas.
Sampaio, T. F. 1886. Cadernetas de Campo. IGC-USP. São Paulo.
Site Oficial do Município de Botucatu, em 15/05/2003. www.botucatu.sp.gov.br.

Este artigo, bem como os demais trabalhos produzidos por estes autores sobre o tema e o material recolhido na pesquisa sobre a vida e a obra de Theodoro Fernandes Sampaio encontram-se disponíveis para livre consulta em www.theodorosampaio.cjb.net.
Jorge Pimentel Cintra
Marcelo José Ferreira da Silva
Escola Politécnica - USP
EPUSP-PTR – Departamento de Engenharia de Transportes
Caixa Postal 61548 CEP 05424-970 – São Paulo, SP
Tel. (11) 3818.5208. Fax (11) 3818.5716.
E-mail: (1) jpcintra@usp.br (2) mar0012@ig.com.br

3 comentários:

O autor do artigo disse...

Marco,
Legal você ter resgatado este artigo que escrevi em 2001. Teodoro Sampaio realmente foi um homem de grandes realizações. Sua história de vida é fascinante.


Abraço,
MaRcElo :)

ricardo lima disse...

Muito bom este texto,inspirador.Descendo de africanos e sou Engenheiro ,assim como ,Theodoro Sampaio e é com orgulho que digo que descendemos de um povo maravilhoso e ressalto que os maiores engenheiros do Egito Antigo eram como nós,ou seja ,tinham a pele escura.

gerson765 disse...

Parabéns pelo texto.Enquanto baiano e filho de santamarenses, noerdestino e brasileiro, sinto-me orgulhoso por ter a minha terra mãe filho tão pródigo em ajudar a construir um brasil tão multifacetado, e, ao mesmo tempo uno.
Peço ao amigos que leiam o livro "Theodoro Sampaio - Nos Sertões e nas Cidades", de Ademir Pereira dos Santos , Editora Versal.